terça-feira, 13 de setembro de 2011

direta - mas não tanto assim

atrás das pálpebras
no meio da floresta
debaixo de pedras
espiando pela persiana
entre as palavras
ao lado da ideia
do outro a cidade
dispersas luzes
brancas pálidas ilustres
voando as folhas
voando os pensamentos
dentro dos sapatos
pulando em poças
pinga no rosto
suaves lampejos
ao longe trovoada
sentada na escada
conversa de bêbado
segredo de nada
crianças correndo
sob oceanos e mares
sobre estrelas
verdes e laranjas e azuis
mais azuis que os olhos
que o céu que o azul
os cabos e os postes
onde se equilibram a clave de sol
e lá e ré e ré e lá
deslizando sem pressa
pra se esconder
na escuridão tímida
de uma tarde engraçada

domingo, 4 de setembro de 2011

Não me deem nomes
Nem cores, nem formas
não dirijam seus olhares a mim
Quero ficar quieta
saboreando o tempo devagar
Enquanto o vento corre
as nuvens dançam e a chuva ameaça
Sorrindo
me sinto morta me sinto viva
Saboreando o tempo devagar

quarta-feira, 20 de julho de 2011

não adianta
eu sei que está lá
longe, do outro lado
tentando se disfarçar
algo muuuuito casual
mas um dia
vem até mim

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Foda-se

Dizer simplesmente FODA-SE, e nada mais, é bater a porta na cara de alguém, alguma coisa ou situação. Uma fuga. Um basta. Uma pausa. Para, muitas vezes, não ter de encarar o, nem sempre, triste fato de que não temos argumentos, de que estamos confusos e não sabemos como lidar com o "adversário".
Nada contra a dizer FODA-SE ou FODAM-SE, mas o excesso pode ser prejudicial. Pois muito provavelmente é a preguiça de raciocínio falando mais alto. E você passa a ser um fugitivo covarde de questões que poderiam ser facilmente resolvidas.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pra esquecer

Meus olhos estavam fechados. Dentro deles estava escuro. Sentia o cheiro dos cigarros, das cervejas, do mato e da noite. Inspirei profundamente pra mergulhar mais profundamente naquele ambiente zonzo e lento. Fui assim até um nada. E quando abri meus olhos, voltei. Estava sentada em cima de uma pedra, ao seu lado.
Eu olhava pra frente mas podia ver perifericamente seu vulto meio irreconhecível. Suas pernas estavam estendidas.
Na minha mão direita a lata de cerveja barata, meio morna, meio cheia, meio amassada. Na minha mão esquerda eu sentia o cigarro entre os dedos. A brasa queimava. Quase não se via fumaça, ventava frio.
Na nossa frente os pássaros corriam, um atrás do outro. Gritavam histéricos, bêbados. "Não vou me esquecer disso", me veio à mente. E coloquei o cigarro na boca. Você deu uma risada preguiçosa, mole, de quem quase nem tinha forças pra rir. Os pássaros pareciam estar brincando de pega-pega. E gritavam. Senti um beijo molhado na bochecha e o bafo de cerveja. Soltei a fumaça pelas narinas e te beijei a boca. "Não vou me esquecer disso". O gosto, azedo, ácido, amargo, gelado, quente, gelado e molhado, morno. Doía lentamente, doía. Queria que doesse mais. Era horrível, mas eu queria. Ir mais fundo e me enroscar nessa confusão. Até ficar inconsciente. E depois voltar como se nada tivesse acontecido.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Vou deixar tocar de novo
Voltas na meia noite e na noite inteira
Não mantenha contato, não estou em casa
Eu poderia tocar seu cabelo
Mas estão espalhados como bactérias
Pelos meus poros impregnam o ser
E o que faço pra me limpar?
E o que faço pra me curar?
E o que faço pra me livrar?
E o que faço pra me desintegrar?

É desodorante barato, a secura do ar
É repetição em repetição
É desperdício jogado no suor do tempo
É espera que não se alcança
Raiva disparada em eletricidade na água

E as ondas flutuam sujas
E meus olhos direcionam a intenção
E eu só quero me deixar perder em mim
E não ouvir nada nada nada
Me enterrar no quintal com as minhocas
E me afogar em terra terra terra
E tudo escurece dentro dos meus olhos
Tudo tudo escurece
Feito noite se desfaz o laço

E volta em meia noite e noite inteira
O disco acaba

sábado, 14 de maio de 2011

Isso seria possível?

Olho o céu. E com certa dificuldade vou recuperando o ritmo normal da minha respiração. Não foi fácil chegar aqui em cima. Há calos, bolhas, arranhões e hematomas. Mas olhando daqui, tudo foi muito simples. As nuvens passam. O sol vai embora. E a escuridão aos poucos avança. E eu queria que você entendesse tudo isso e soubesse como é estar aqui, a contemplar de longe. A ter essa visão de que somos significativamente insignificantes. E então sorriria-se...
Mas como isso seria possível? Como?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Quantas canecas de chá preto hoje? Duas. Duas. Nem foram tantas assim. E me descabelo e me pergunto pra que essa coisa rançosa pairando ao meu redorrrrr? Você não está bem? Eu também não estou.
(...)
Podia-se dizer coisas. Podia-se dizer sinto saudades. But... a realidade é outra. Acorda, florzinha! (voz anasalada) Chá preto nenhum vai adiantar.
Ai, maluquices! Preciso tomar um banho!

sábado, 30 de abril de 2011

Ãh?

Augusta, tá. Puta merda porque tinha de começar a chover bem agora? August. Monte de gente esquisita. Faço parte. Tá. Malditos pingos! Mas será que é aqui mesmo? Puts, e se for do outro lado? Ele disse que já tava lá. Merda. E esse sapato agora? Também... eu deveria ter ido pra lá antes, com calma, mas não... Não queria ficar esperando ele lá com cara de tonta. Ô merda de chuva. Luis Coelho? Puta merda, tô do lado errado só pode ser... mas... Droga, não tô enxergando nada. Ai, dá licensa, meu. Vá pisar no pé da sua vó! Que merda. Cadê meu guarda-chuva? Acho que vou ter de voltar. Não sei, acho que não é por aqui. E se eu perguntar na banca... "ô, moça, olha por onde anda!". "Ai, desculpa!" Bosta. Acho que vou ter de voltar. E essa merda... "Oi.". "Ah, mas... que você tá fazendo aqui?". "Sabia que você ia tá perdidona por aí.". "Ah, falô...". "É, sério!". "Que nada, você ia comprar cigarro...", "Ah... claro, que não...".

K

Ke-rou-ac
Kerouac
Kruac
Krac
Rac

On the road
Jack?
On the road
Jack?

No dia em que eu, depois da primeira aula, estava na biblioteca da faculdade procurando pelo On the road, sussurrando pra quem não quisesse ouvir "Jaaaaack?", e depois encontrá-lo com tamanha felicidade, e enfiá-lo dentro da bolsa... Lendo no ônibus em transe de outras dimensões... Cheguei em casa.
Cheguei em casa. Fechei a porta. Minha mãe soluçando ao telefone. Falando de alguém. "Pitoco?", pensei, assustada e preocupada. Ele apareceu. "Bom, meu cachorro está bem." Então ouvi o Jack me chamando "Iara", "oi?", "Iara...", "que foi, Jack?", "...seu pai morreu".

- Filha, seu pai morreu.

1922
1954
1969
1982
2002
????

- ... seu pai...
- É, tô sabendo.

sábado, 9 de abril de 2011

de prata virou prateado que virou arame

de prata virou prateado que virou arame
ainda gosto de ouvir histórias de fantasmas
te transformei em mais um pra minha coleção
junto de sapatos debaixo da minha cama
ou de uns tantos livros espalhados pelo quarto
Mais uma fogueirinha vai nascer
E da fumaça a gente te exorcisa
de prata virou prateado que virou arame
que não vale um tostão

isso só pode ser doença, só pode ser
e eu estou em busca do meu remedinho milagroso
meus lindos remedinhos

segunda-feira, 4 de abril de 2011

começando pelo fim

Começo por onde? Que tal pelo final? Fui demitida.
Isso foi na quinta da semana passada, mas ainda estou tentando lidar com o baque. Hoje é segunda. E muitas vezes me pego na mesma situação: através de flashbacks tento analisar em que ponto errei, ou o que eu fiz pra que desencadeasse isso. E no meio de tudo uma imagem ecoa na minha cabeça com certa insistência. Nada específico. Nada especial. Apenas vem. Em câmera lenta, o minichefão vai de uma sala à outra, os olhos vidrados, seus braços gesticulando, todo agitado, gritando palavras incompreensíveis, resmungos, coisas que ninguém consegue entender direito, parece o choro de uma criança mimada exigindo atenção, atenção, atenção,... e para ontem!
“E o que eu tenho a ver com isso?”, me pergunto de repente. Nada. Nada mais. “Já foi” é o que repito a mim mesma. Pensar nisso me deixa feliz, mas depois me lembro de meus colegas que ainda estão lá... enfim, bola pra frente.
De verdade, não sei em quanto tempo vou conseguir voltar a trabalhar efetivamente. Mas acredito, sinceramente, que as coisas vão melhorar. Não me pergunte de onde vem essa crença. É algo que sinto. Se vem de deus, deuses, ou se é simplesmente uma tolice, não sei. Tenho até junho para curtir a vida. Depois é correr atrás.

segunda-feira, 14 de março de 2011

último andar

eu estava no último andar
não havia como negar isso
eu sonhava com as nuvens
eu sonhava com o céu
e me deixa levar pelos pesadelos
virando estrelas em madrugadas nulas...

até ouvir
ESSA É A COISA MAIS IMBECIL QUE VOCÊ PODERIA FAZER AGORA!!!
VOCÊ ME ENVERGONHA, ME CONSTRANJE!!! ESCROTA!!!

e eu acreditei nisso
achava que não se podia ser imbecil
que não deveria constranger nem envergonhar ninguém
e eu não queria ser uma escrota (esse adjetivo ecoa)

Então me senti um nada
caindo
me desintegrando durante a queda
perfurando o concreto com o resto
indo ao centro da terra
e lá ficando, tentando encontrar algum canto

e depois voltei aos vermes
remoendo o estômago, corroendo pensamentos
Dexei-me apodrecer por algum tempo
Era preciso, fazer o quê

e depois de algum tempo resolvi voltar à superfície
ainda sonho com as nuvens e o céu
meus pesadelos são raros agora
... mas aquele prédio...
ele continua lá fazendo parte da paisagem

sábado, 12 de março de 2011

eternidade

não cabem nos olhos a incerteza
não agarro com as mãos o tempo
não cravo os dentes nos pensamentos

escadas?
degraus
à frente
espiraladas?
E o resto são pedaços de nada

Salvo o ar, até a morte - sem ar
Salva a consciência?
Adormecer e despertar. Sempre
Latejar
Pulsar
Proporcionar
Lançar-se em ser na ilusão

Janelas

Tô aqui já fazem umas duas horas. Cara, isso é tempo, ein. Duas horas. Agora são exatamente 3h14 da manhã e ela não apagou a luz do quarto dela. Não consigo ver direito o que ela está fazendo lá. Às vezes acho que ela está olhando na minha direção, que ela está me enxergando, às vezes acho que ela não está nem aí. É meio esquisito. Não sei por que fico aqui, observando-a. Fico me perguntando porque ela de repente sai à janela de madrugada pra olhar sei-lá-eu-o-quê... As nuvens talvez?
Um dia ela disse que tinha me visto. Até me mandou uma mensagem no celular. Na verdade, eu até recebi a mensagem mas não sabia que era dela, ou melhor, sei lá, não dei muito crédito. Achei que ela tivesse me zoando, sei lá. Até que depois de um tempo ela tinha me dito que tinha me mandado a mensagem. Dizendo que não sabia se era mesmo eu que ela tinha visto da janela do quarto dela. Fiquei meio paranoico com essa história pra falar a verdade. Achei que ela estivesse me espionando. Quem sabe ela não seria uma psicopata? Mas como ela - e muito menos eu - nunca mais tocou no assunto, resolvi deixar pra lá. Quer dizer, mais ou menos.
Quase toda noite vejo ela chegando na casa dela. Vejo ela abrindo a janela. Colocando os sapatos na janela. Levando sua bolsa de um lado para o outro do quarto. Mexendo em uns negócios que acho que devem ser vasos de plantas. Vejo os pés dela, na janela. Ela deve apoiá-los no batente enquanto lê um livro. Acho que deve ser um livro, não sei. Nunca a vi pelada. Ela não se troca na frente da janela, já percebi. Às vezes, ela fecha a janela por alguns minutos e depois abre, com uma roupa diferente, com o cabelo que estava solto, preso.
Ontem ela não apareceu. Achei que talvez tivesse saído. Com a mãe. Com amigos. Com o namorado, talvez. Fiquei esperando, e nada. Quer dizer. Na verdade, eu estava aqui jogando no computador e às vezes dava uma olhada pra ver se ela aparecia, abria a janela e acendia a luz do quarto. Mas ela não apareceu.
E agora ela está lá. Não consigo vê-la, mas sei que está lá, porque agora a pouco a vi passando na frente da janela. O vulto dela andou da minha direita para a esquerda. Foi muito rápido. E como é meio longe, não dá pra ver direito. Fico aqui no escuro. Mas duas horas? Acho que é muito tempo. Por que estou até agora, aqui, nesta escuridão, tentando adivinhar o que ela está fazendo?

sexta-feira, 4 de março de 2011

*

Tento achar um cantinho
Um frestinha onde encaixar
meu olhar atento aos movimentos
Com o dedo em riste capto
Os bons ventos que hão de chegar
Hão de chegar
Pela tempestade que está ali
Não há como negar, não há como negar
Os bons ventos hão de chegar

E se vem avião, ou lua cheia
No céu da minha janela há flores
Caminhos de pedras a me levar
Onde quero ir, do outro lado do mundo
Fugir um pouquinho dos dias-dias
Nas minhas horas vagas prefiro sonhar
Tirar conclusões é só diversão
Jogo pra valer no imaginar.

palavraslivres

Boca pequena do peixe em sublinhado instante de megera agonia passeia seus sonhos nos meus cabelos instantes absolutos de mágoa e tristeza nas notas de cem reais inexistentemente azuis oceânicos peixes do fundo domar azul. Bolhas. Labaredas estreladas e raio fúgidos. papagaio de meia tigela longe na lama da lontra lambusada de esguela me olha irônica e sombria. "Eu sabia, eu sabi" ela pensava. ela me dizia que nada ia me censurar, só dessa vez. Seja livre, Iara. dessa vez pule do prédio com uma venda branca nos olhos. eu perguntei "Por que brancas?" Ela disse que não sabia direito mas talvez isso pudesse ser algo assim romântico. Um suicídio romântico igual aqueles. Do Werther, lembra? Sim, sim. Werther. Eu chorei tanto lendo aquele livro. Meu coração virou coraçãozinho. Apertado de dar dó. hahaha ela riu. hahahah Riu de novo. Não, isso não tem graça. Vamos ficar aqui batendo nessas teclinhas porque tem a letra "t" e a letra "i" e a letra "l". Ah, e o som a batida é tão legal. As teclas sendo tecladas. Meu pai, é disso que me lembro. pela madrugada a dentro fumando e batendo nas teclinhas com a quela loucura insana compassada. A fumaça o cheiro de cigarro. Horríveis. mas não me importava porque sim. Parecia algo grandioso, meu pai estava trabalhando. ele era louco. diferente de outros pais. Eu adorava. Então cresci, achei que também queria ser assim. Trabalhar com teclinhas à noite. Mas não foi bem isso o que aconteceu. Por exemplo agora teclo sem parar já são quase 1h30 da manhã. mas faço isso apenas porque de certo modo é divertido e acho que não tenho nada melhor pra fazer neste exato momento. Embora eu pense que devo parar porque minhas pálpebras estão ficando pesadas e este texto pode ficar muito longo. eu tentei dar um aspecto surreal pra coisa no começo. queria, sério, era ir por esse caminho, mas, enfim, acabei me desviando. Termino agora, então pra você se ver livre de mim caro leitor invisível.

a casa

Eu desço a rua logo a noite quando venta mais no morro. E do outro lado quero, desejo muito ver sua casa. E quero, desejo muito não desejar isso. Sigo meu caminho. Viro na esquina. Chego ao portão de minha casa. Quase todo o dia. Depois do trabalho. Talvez às sete horas da noite.
É bem provável que eu esteja tendo mais um de meus delírios. Mas geralmente eles são tão fortes que podem se tornar reais. Então, penso que talvez eu devesse bater à porta de sua casa pra me desculpar por invadir assim a sua realidade. E sua história que não tinha absolutamente nada a ver com a minha. Eu nasci há um tempo antes. Antes, sim, bem antes. Você não estava lá, ninguém disse que você estava lá. E de repente desejo somente ver sua casa esteja acesa. Quem sabe. É uma esperança. Sei que você está vivo porque acendeu a luz de sua casa. Não sei quem você é. Mas sei onde mora. É bem ali, naquela casa. E porque há um certo sentimento de culpa em tudo isso talvez eu devesse explicar. Algum dia quem sabe. Me sinto horrível. Me sinto assassina. Uma criminosa. Minha consciência me castiga, ela sabe. Ouço sua voz. Então, tento apagar tudo isso. Tento me livrar dessa coisa, desse peso que me faz sentir desprezo por mim mesma. Meus pesados passos andam tortos. Subo escadas com dificuldades. Mas descer aquela rua é fácil. A maníaca, a obsessiva, a depressiva. Me dê um pouco de luz.

Locutor

Eu escolho o Lee Ranaldo pra narrar a minha vida quando eu morrer.

Gosto de livro

Meu amigo e eu marcamos de nos encontrar em uma livraria no centro da cidade. Como quase sempre, cheguei dez minutos atrasada. Na entrada ele não estava, então resolvi procurá-lo entre as estantes. Era bem provável que estivesse na parte de literatura estrangeira. Olhei os três corredores e nada. Talvez ele ainda não tivesse chegado. "Se ao menos tivesse celular eu poderia ligar pra ele...", pensei. Enfim, resolvi dar mais uma checada geral em toda a livraria. Eis que de repente o avisto de longe, no fundo do corredor de dicionários de língua estrangeira. Fiquei feliz por finalmente tê-lo encontrado. Caminhava em sua direção já pensando na desculpa que ia dar pelo meu atraso. Ele folheava um dicionário com as duas mãos, parecia entretido. Quando eu estava para abrir a minha boca para chamá-lo, percebi que ele aproximava o livro aberto de seu rosto, mais precisamente de sua boca. Surpresa e curiosa, parei de caminhar e me pus a observá-lo. Ele calmamente aproximou o livro de sua boca e deu uma lambida generosa em uma das páginas, deixando um rastro molhado que brilhava, refletindo a luz da loja. Fiquei chocada. Não sabia o que fazer, só sabia que sentia que eu não deveria estar ali vendo aquela cena. Quando dei por mim, ele já tinha me olhado de soslaio, assustado, desviara o olhar. Num gesto brusco tentou se livrar do dicionário afastando-o de seu rosto. Um sorrisinho nervoso brotou num dos cantos da boca. Olhava pra frente, como se estivesse muito concentrado na tarefa de,desesperadamente, encaixar o livro de volta à prateleira e de não sair correndo dali.

atravessando a rua

A mão vazia na noite balançava no ar gelado da carência afetiva hormonal do coração fraco e tonto. "Se eu fumasse, estaria fumando agora", ela pensou enquanto aguardava o farol fechar para atravessar a rua. "Um cigarro assim, com aquela pontinha acesa, a fumacinha saindo, aquele cheiro horrível, consumindo minhas horas nesse mundo, mas confortando por alguns minutinhos meu pobre coração cansado de sofrer, como aquelas músicas, poemas, frases bregas, enfim...". Vermelho. Ela atravessa a rua, fechando a blusa na altura dos peitos com a mão direita. Alcança o outro lado da rua. "Se cigarro não prejudicasse tanto a saúde, eu fumaria".

reflexos

Vi sua cabeça deitada sobre seu braço.
Vi seu cabelo se encolhendo sobre sua cabeça.
Vi a ponta de sua orelha direta, pálida de frio.
Vi os pelos de seus braços, confortáveis.
Vi seus olhos crescendo em minha direção.
Vi os seus gestos disfarçados de casualidade.
Ouvi sua voz sendo descartada como um sonho qualquer.
Sim, você estava lá na minha frente.
E, no entanto, aquilo tudo não era você.
Era eu.

A onda dos cardumes

Letras flutuando nessa imensidão branca
Cardumes negros passeando na onda
Interligando nossos mundos e talvez algo mais
Dançando nos pensamentos sedentos
Não solte minha mão, termino mais um parágrafo
Acompanhe o compasso da respiração
Pálpebras pulsam nosso caminhar
É tão fácil não resistir, não resistir
Me deixo levar

domingo, 2 de janeiro de 2011

Começo de 2011

É. 2011 chegou.
Estamos aqui no segundo dia.
Cinzento e chuvoso dia.
A chuva agora fez uma pausa.
Parece que o ar ficou mais vivo.
E os olhos mais frescos

Infelizmente meus pensamentos andam um tantinho embaçados
Um tantinho aqui e um tantinho lá
devagarzinho vamos pra frente
Arrastando esses primeiros dias do ano
Novos projetos?
Nem tantos, mas quem sabe dessa vez...