terça-feira, 5 de julho de 2011

Pra esquecer

Meus olhos estavam fechados. Dentro deles estava escuro. Sentia o cheiro dos cigarros, das cervejas, do mato e da noite. Inspirei profundamente pra mergulhar mais profundamente naquele ambiente zonzo e lento. Fui assim até um nada. E quando abri meus olhos, voltei. Estava sentada em cima de uma pedra, ao seu lado.
Eu olhava pra frente mas podia ver perifericamente seu vulto meio irreconhecível. Suas pernas estavam estendidas.
Na minha mão direita a lata de cerveja barata, meio morna, meio cheia, meio amassada. Na minha mão esquerda eu sentia o cigarro entre os dedos. A brasa queimava. Quase não se via fumaça, ventava frio.
Na nossa frente os pássaros corriam, um atrás do outro. Gritavam histéricos, bêbados. "Não vou me esquecer disso", me veio à mente. E coloquei o cigarro na boca. Você deu uma risada preguiçosa, mole, de quem quase nem tinha forças pra rir. Os pássaros pareciam estar brincando de pega-pega. E gritavam. Senti um beijo molhado na bochecha e o bafo de cerveja. Soltei a fumaça pelas narinas e te beijei a boca. "Não vou me esquecer disso". O gosto, azedo, ácido, amargo, gelado, quente, gelado e molhado, morno. Doía lentamente, doía. Queria que doesse mais. Era horrível, mas eu queria. Ir mais fundo e me enroscar nessa confusão. Até ficar inconsciente. E depois voltar como se nada tivesse acontecido.

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