terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Na sala de espera

Hoje cheguei uns 10 minutos adiantada para a consulta com a psiquiatra. Tive que passar um tanto de tempo na sala de espera. Dá tempo de beber um copo d’água calmamente, procurar alguma revista interessante para folhear que não seja a Veja ou Caras (ou alguma genérica que de tão sem importância não me lembro o nome).

Nisso, existem as pessoas. Os outros pacientes. Os outros maluquinhos que estão no mesmo barco que você.

Antes de eu entrar no edifício do consultório, antes de dobrar a esquina que dá na ruela do edifício do consultório, ultrapasso com passos firmes um moleque que anda na minha frente de um modo molenga. Mas não um molenga qualquer, imagine um robô molenga querendo andar rápido. Assim era o moleque. Aparentemente descendente de japoneses. Ele carregava uma dessas bolsas a tira colo cheio de botons coloridinhos. O que mais me chamou a atenção foi o fato de os botons estarem dispostos um ao lado do outro, em duas fileiras retas. Ah, e também reparei que ele andava com a mão direita esticada. Os dedos não estavam tão retos quanto o braço, mas pareciam tensos. Me fez lembrar de um primo meu.
Ultrapassando o moleque, aperto o passo porque acho que tenho chances de chegar atrasada. Diante do portão branco do edifício, que na verdade é uma casa, aperto o botão do interfone. Depois de um tempo esperando, ouço o clique do portão. Ao fechá-lo atrás de mim, vejo o moleque acenando para que eu deixe o portão aberto. É, ele é um os pacientes. Tão maluco quanto eu. E, ao vê-lo de frente, vejo que não é tão moleque assim. Deve ter uns vinte e tantos anos. Sei lá.
Ao entrar na recepção/sala de espera o lado esquerdo há um homem grandalhão segurando uma sacola de pano, com ar angustiado. Ele balança o corpo levemente pra frente e pra trás. Eu sinto angústia ao vê-lo, porque parece que ele está sofrendo.
Do lado direito um senhor de boina está sentado ao lado de uma mulher um pouco mais jovem, provavelmente sua filha. Ela mostra a ele fotos do seu celular e comenta alto “essa aqui foi a pizza que a gente comeu no sábado”.
Me dirijo à recepcionista. “Tenho consulta com a Dra. A.”. Entrego a carteirinha do convênio médico e vou até o bebedouro pra beber o copo d’água. Faz um calor desgraçado. O moleque que não é moleque é cumprimentado pela recepcionista. Talvez ele deva bater ponto lá toda semana. Ele senta na ponta o sofá, perto do bebedouro, pega o celular, e aperta os botões, ou finge que aperta e que está vendo algo interessante, cantarolando a música que toca no rádio da recepção/sala de espera. Cantarola desafinado. “Básico”, penso.
Volto ao balcão da recepcionista porque tenho de assinar um formulário para o meu convênio médico. Depois sento na outra ponta do sofá onde está o moleque que não é moleque. A minha frente continuam pai e filha vendo as fotos do celular enquanto caço uma revista interessante pra folhear. “Ah, você tira fotos para não esquecer, né”, diz o senhor para filha. “Não, mas olha que bonita essa estrada. Olha essa árvore!”. Acho uma revista Exame, a qual, depois de folhear, concluí que não é melhor que uma Veja.
O cara grandalhão parece cada vez mais inquieto. Murmura algumas coisas. Boceja um “nossa, que sono!” com uma voz grave. E agarra sua sacola de pano precisa. Uma mulher com a cara fechada chega, diz algo à recepcionista. Depois de olhar o grandalhão por um tempo senta ao meu lado e fica tensamente imóvel. Logo em seguida chega outra mulher que também é recebida pela recepcionista com simpatia. “De cabelos longos?! Quando você veio aqui tava curtinho. Ah, foi por causa do casamento, né.” Essa mulher senta do lado do grandalhão e começa a mexer no celular.
Enquanto finjo folhear uma revista de decoração de casas, fico pensando no que será que o grandalhão tem. Será que ele pode surtar do nada e bater na mulher que tá do lado dele? Será que toma uns medicamentos pesados? Será que ele sofre muito? Tenho dó. E de repente reparo que o moleque que não é moleque também balança levemente o tronco pra frente e pra trás, cantarolando outra música, mexendo no celular. “Esse deve ser hiperativo. E deve ter dificuldade em se relacionar com as pessoas”, penso. A que está do meu lado continua imóvel, não reparo se ela pisca ou se respira. Na verdade, eu não me viro diretamente pra ela. Tento observá-la com o canto do olho. Talvez ela tenha depressão. A do lado do grandalhão também. O senhor e sua filha? Não faço ideia. Mas todos ali estão com algum problema mental. Já imaginou isso? Estar numa sala onde a maioria das pessoas é “gente perturbada”?
Pois é, e eu sou uma dessas “perturbadas” (ouvi isso de um cara que tentava impressionar a moça que estava com ele na Livraria Cultura de Artes, quando folheavam um livro da Diane Arbus: “Essa daí, você sabe, né, era uma perturbada. Se matou.”). Bom, até que escrevendo isso me vejo com um certo privilégio de ser “perturbada” como a Diane Arbus. Oh, tenho algo em comum com essa fotógrafa excepcional!


E estamos ali no mesmo barco, procurando soluções para nossos problemas. Naquela sala, aguardando nossos psiquiatras.  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Algo sobre depressão - 1

Eu cheguei a pensar em escrever um diário da depressão. Mas, sei lá, talvez a impressão tosca que isso poderia passar é a de que eu fico chorando 24 horas por dia, ou então desejando morrer 24 horas por dia. Algo assim. Algo bem tosco. Não que não existam pessoas assim. Mas é uma imagem um tanto estereotipada, acho eu.
A verdade é que, depois de muito tempo, uma psicóloga me disse que talvez, quem sabe, eu poderia estar com depressão. Sim, depois de ter passado a minha adolescência inteira e parte da minha juventude me odiando, alguém me disse que isso poderia ser depressão.
E, depois dos 30, lá estava eu em uma noite de setembro, deitada no sofá, chorando por ter de tomar antidepressivos, morrendo de medo de ficar mais maluca do que eu já me achava. Ainda bem que tenho minha mãe pra me ajudar.
No dia seguinte tomei o primeiro comprimido. Pequeno, branquinho. Que me deixou perturbada. Fiquei enjoada, ansiosa, com medo. Passei o dia meio assim. Mas no dia seguinte tive de me concentrar no trabalho e acabei não ligando muito pro efeito do remédio.
O s dias foram passando assim. O ruim é que fui sentindo uma sonolência cada vez mais intensa. Cheguei a falar disso com a psicóloga. Ela disse que isso poderia ser tipo uma fuga minha pra não ter de enfrentar alguns problemas do meu dia a dia. No entanto, ela disse que sim, que isso poderia ser efeito do remédio.
Fora isso, eu me sentia meio mal com essa história de ter depressão. Por um lado, me senti aliviada. Alguém (a psicóloga) conseguia entender mais ou menos como eu me sentia. E saber disso é um puta alívio, me sinto menos sozinha. Por outro, me sentia meio mal de os outros saberem que eu estava deprimida. A única pessoa pra quem contei que iria tomar antidepressivos não tocava no assunto. A impressão que me ficou era a de que eu a estava incomodando com esse papo de depressão. Fiquei bastante frustrada com essa atitude, pois achei que essa pessoa era mais aberta.
Antes de ser diagnosticada, eu já conhecia pessoas que tinham depressão e que estavam tomando remédio. Confesso que eu ficava curiosa. Queria saber como ela se sentia tomando os antidepressivos, e como era a vida sem o remédio. Mas nunca perguntei nada. Conheci pessoas que diziam que já tinham tomado antidepressivos como se isso fosse motivo de orgulho. “Cara, sou muito foda, eu já tomei antidepressivo”. Já escutei gente dizendo “meu, eu tinha esquizofrenia. Era foda. Eu escutava vozes”. Ah, é... e se curou do dia pra noite. Sei.
O que quero dizer é que, até onde sei, a depressão fica ali à espreita, esperando você dar a chance de ela eclodir em uma crise. Não é uma coisa do tipo: “ah, terminei meu namoro ontem, estou deprimida, vou tomar uns remedinhos hoje e tudo vai ficar bem”.
Fazendo tratamento com psicóloga e psiquiatra, hoje, entendo uma porrada de coisas que aconteceram no meu passado. Umas crises ferradas que eu tinha, nas quais não havia ninguém que me dissesse o que estava acontecendo, porque eu preferia me isolar a ter de deixar alguém desconfortável com essas "histórias chatas". Era horrível. Eu me sentia a pessoa mais sozinha do planeta Terra. E, claro, eu tinha lá os meus pensamentos suicidas. Eram horríveis. E eu acordava de manhã com muita raiva de mim mesma por sentir o que sentia. Ou seja, era uma bosta.
Hoje estou no segundo antidepressivo. O primeiro me dava muito sono, e já estava começando a me atrapalhar no trabalho. Então tive de trocar de remédio. Estou há quase duas semanas com ele. Segundo a bula, o efeito do medicamento começa a ser sentido depois de duas semanas de tratamento. E este segundo é bem mais caro que o primeiro. “Ah, esse não vai te dar tanto sono, você não vai engordar nem perder a libido”, mas por ele tive de pagar o dobro do primeiro remédio que dava sono pra caralho, me fez engordar 4 kg e perder parcialmente a libido.


(continua...)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Brincando de deus/diabo ou não

Era uma vez uma pessoa que sonhava em escrever o pior livro da face da Terra. Sim. O pior. Ela achou que ia ser muito fácil. Só inserir uns erros ortográficos aqui, umas vírgulas separando o sujeito do predicado ali. Numa história absurda ou incompleta, ou absurda e incompleta, totalmente desconexa, quem sabe. E, no meio, botar uma moral da história totalmente imoral ou bizarra. Mas mesmo assim, por incrível que pareça, o texto poderia acabar muito bem escrito. Que droga!
Não, essa pessoa não sou eu. Imagine. Achei que ia ser bem fácil... er... quer dizer... a pessoa da história...
O meu sonho, ou melhor, o sonho dessa pessoa era escrever um livro em que um ou alguns dos personagens morressem e, em certo ponto da história, de repente, eles brotassem do chão como o mestre dos magos do desenho Caverna do Dragão, como se simplesmente nada tivesse acontecido. Seria divertido. Ainda mais se algum outro personagem tivesse sentido muito a perda do que morreu.
Isso de certo modo é como brincar de deus. Ou, no mínimo, só uma pessoa que ressuscita os mortos. Ou seja, deve ser divertido. Alguns diriam que essa pessoa que quer escrever o pior livro da face da Terra tem uma ideia estranha de diversão. Mas ela não se importa muito com isso não, visto que hoje em dia poucas pessoas conseguem se divertir de verdade. Por acaso é divertido fazer de conta que você é outra pessoa ou outra criatura, em outra realidade? Claro que é!
Sou deus, quer dizer, a pessoa lá é, e ela vai ressuscitar personagens. Muahuahua.
Essa risada tá mais pra diabo que pra deus.

Enfim, tanto faz. No fim dá tudo na mesma.

terça-feira, 16 de abril de 2013

dedos

Não sei por que penso em dedos
Penso em seus dedos
O indicador e depois os demais
E desejo ultrapassar a aspereza
Dessa aura que separa nossas existências
Como é ser você?
Como é sentir o que você sente?
O calor de dentro da sua pele
Quando volta sozinho para casa
Para onde olha quando não olha para mim?
Qual o sabor dos seus dias?
E quanto mais penso, mais profunda é a vontade de me sufocar em você
Mergulhar na sua existência à procura de respostas
Mas acho que não voltaria mais à tona
Minha pele assim parece ser mais fria
Porque às vezes quero me desfazer de mim
E saber disso faz meu amor por você doer

Arrependimento


Eu sei que vou fazer uma merda. Simples assim. Eu sei que vou me arrepender em algum momento. Talvez em poucos segundos adiante. Entre uma piscada e outra. É. Eu vou me arrepender. Eu sei. E esse é o preço. É a moeda. Meu desespero de ouro. É ele que muda o rumo das coisas, em um instante. Que venha o vento leste. O vento oeste. Eu vos convoco! Este é o momento! Faça-se a merda! Ploft!

Simples assim.

E então aquele grito dentro de mim emudece. Ele está surpreso comigo mesma. Ele está surpreso com o mundo. Estamos, eu e meu grito mudo, no topo da montanha-russa, admirando a paisagem. Vejam aquelas pessoas, tão pequenininhas. Olha, meu professor de artes do ginásio! E aquela menina ali, qual é mesmo o nome dela? Pequenininhas. As pessoas. Vivendo as suas vidas. Correndo de um lado para o outro. Agarrando-se em seu desespero. É assim que o meu desespero as enxerga. Eles se reconhecem. E eu digo que ele precisa de óculos novos, porque ele está vendo tudo embaçado. Confunde algumas coisas, coitado. “Não, não é bem assim”, digo, às vezes.

Simples, não é mesmo?

Mas já foi. Não tem como voltar. A merda tá aí.

Já soou o alarme. Não tem como parar. E um buraco vai se abrindo aos meus pés. Uma boca fatal a me engolir como um chá amargo. E lentamente vou caindo dentro dela, sem quase nenhuma resistência, e não sei quando exatamente vou parar de me afundar nela. Caindo tento me acalmar: “Não foi por mal!”.
Não, nunca é por mal.

E vou caindo, caindo, caindo... e se a dor vai se intensificando, vou desejando perder os sentidos. Vou desejando esquecer meu nome. Vou desejando tornar-me invisível e sumir. Me desintegrar. Virar sonho de ácaro, ou pesadelo. E já nem sei direito o motivo de eu estar onde estou. Apenas caindo.

Mas então chega uma hora que o vazio cansa. Que não aguento mais acordar e ainda estar caindo. Cair torna-se entediante. Bom dia, vazio! Boa tarde, nada! Boa noite, indiferença! A queda vai desacelerando. “Vejam só que bosta de vida estou levando. E olha que nem temos tanto tempo assim, não é mesmo?” E assim a saudade de sentir o gosto das coisas vem sussurrar nos meus pensamentos. Sentir a dureza do concreto sob os pés. O calor do sol, o vento na pele e o cheiro de terra molhada das chuvas de verão. Saudades até de sentir um tapa na cara.

Eu senti um tapa na cara. Doeu. Doeu bastante.

Ainda dói quando eu me lembro. Mas eu aguento. É o preço. Ou melhor, é o lado ruim de uma coisa boa, da qual não me arrependo. Mais uma lembrancinha, um souvenir a ser levado comigo até eu morrer.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Receita para amanhã de manhã


Sonho da madrugada,
Mexa a noite com uma colher
Até me dissolver nas estrelas
Deixe-me descansar por algumas horas
E sirva-me para o próximo dia

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Cosmocaos-me


Nestas linhas que se desenrolam neste horizonte
Eu deveria ver o futuro como a palma de minha mão
Haveria promessas e certezas, um abrigo, uma cama,
Um buraco aguardando o meu corpo e minha alma
Porque a minha vontade seria a vossa vontade
Que prevaleceria na terra e no céu
A casa seria uma casa, meus pés seriam só pés,
e a rosa seria aquela flor

Mas estas linhas que se desenrolam neste horizonte
Foram as minhas mãos que as imaginaram e as traçaram
Inseguras e trêmulas, defeituosas, roucas e, por vezes, sem voz de tanto gritar
Há de celebrar a casa, o corpo e a alma - e o buraco, por que não?
De repente dá uma vontade louca de deitar na terra e contemplar o céu
A casa é de quem quiser, você pode tudo, cuidado
Os meus pés dançam desengonçados, tentando trilhar a música
E a rosa é violeta, virulenta, boba e
rosa

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Expressão do Amor

As pessoas pedem amor, mas, muitas vezes, não estão preparadas para recebê-lo, nem para dá-lo. Por isso acontece um monte de confusões. Por isso se sente muito e pouco se diz. Deveria haver uma disciplina em, pelo menos, todos os anos do ensino fundamental: Expressão do Amor. Há escritores, filósofos e cientistas por aí, em botecos, ou sozinhos em seus quartos, sedentos por elaborar teorias, por mapear padrões, por ter o que fazer pelo bem da humanidade, ou simplesmente por ocupar o tempo. Pois bem, cá estou a trazer-lhes luz com esse tema: Expressão do Amor. Posso estar enganada, mas me parece uma ciência bem complexa.

(existem expressões matemáticas para o amor?) 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Queria escrever



Nem acredito que eu disse à psicóloga que queria escrever.

E agora penso “que bosta, por que eu disse isso?”. E não entendo por que passei as duas últimas sessões falando sobre isso. “Meu pai era jornalista”, eu disse. “Eu já gostava de livros antes de pensar em fazer uma faculdade”, eu disse. “Eu não sei o que vou escrever”, eu disse.

A psicóloga disse então “Pare de ser idiota. Escreva qualquer merda e seja feliz!”.

Não, não foi isso o que ela disse. Foi algo mais sutil. Algo como “permita-se tentar”.

“Tentar eu tento, minha senhora”, foi o que pensei.

“Então, deixe que os outros leiam e digam que tudo que você escreve é uma merda. Afinal, você precisa ouvir uns ‘nãos’ e observar como você é forte. Você não vai morrer se ouvir um ‘não’ e...”. Espera, espera! Acho que tô confundindo as psicólogas.

A coisa toda é mais tranquila. O ambiente é mais tranquilo. “Tudo bem? Como foi a sua semana?”, ela me pergunta. E eu respondo “foi tudo bem”, “foi indo”, “foi mais ou menos”, “foi uma droga”.

Passeei com a minha cachorra dia sim, dia não. Trabalhei alguns dias. Alguns capítulos de sociologia. Outros de geografia. No meio da leitura parava para anotar os nomes dos livros interessantes, que eu acho que algum dia irei ler. Ouvi minha colega de ginástica dizer que estava tomando antidepressivos e que por isso passou a última semana no banheiro, com diarreia. Fui ao médico. Tiraram uma radiografia do meu pé. Foi a minha primeira radiografia na vida. Vi meus ossos. Achei legal, apesar de estar com alguns problemas. No mesmo dia comi um bolo de damasco e disse a minha mãe que pedir bolo de damasco deve ser coisa de gente muito velha. Nem minha mãe pede isso. Fui a um restaurante russo com algumas amigas e amigas das minhas amigas. Fiquei entediada na frente do computador. Comecei um diário. Regime de três páginas por dia todas as manhãs. Faz três dias que esqueci de escrever no diário. Recebi convites “Minha amiga de Cidade-Tal vai vir pra cá no Carnaval. Vamos fazer alguma coisa?”, “E aí, vai rolar um boteco logo mais?”, “Aniversário da Bruna, no Bar X, vamos?”. Respondi “talvez”, “vai ter o aniversário da Bruna, no Bar X, vamos?”, “claro! Vou chamar pessoas”. Comecei a estudar francês. Agora sei que “chose” significa “coisa” e que “croire” significa “acreditar”. Ri com meu irmão enquanto discutíamos o alfabeto grego, adivinhávamos o nome do peixe que minha mãe tinha comprado, criticávamos uma música funk horrível, comentávamos sobre vídeos engraçados. Planejei passar o Carnaval assistindo filmes. Desisti de ir ao cinema pensando que muita gente ia ter a mesma ideia. Mas ia ser legal ir ao cinema. Queria ir a uma balada anticarnaval. Pesquisei sobre pós-graduação na internet. Foi aniversário do meu falecido pai. Uma tia me telefonou e me aconselhou: “Se estiver difícil arranjar namorado aí, vem aqui que tem muito homem. Você não pode ficar sozinha” . Tive vontade de dizer que era lésbica, só pra ela parar com esse blablablá. Ajudei um metrossexual maquiado a voltar pra casa, ou sei lá o quê, doando dois reais. Me senti meio imbecil fazendo isso. Me lembrei de ter ajudado um punk com um passe, quando ainda se usavam passes pra pegar ônibus. E me lembrei de também me sentir uma imbecil por isso. Dobrei a esquina, depois de ter saído da última sessão, pensando “por que eu assinalei a alternativa ‘penso em me matar, mas não teria coragem de fazer isso’?”. Depois fui ao mercado e comprei um hambúrguer de soja com ervas finas.

“Então. Tô pensando em escrever.”

Ela me olha com cara de parede bege.

“Eu não sei o que ainda. Mas, sei lá, queria escrever.”

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Livros


(A)

Eu adoro livros. Adoro o objeto livro. E muitas vezes o conteúdo dele. Nem sei desde quando exatamente. Há muito tempo. Mais ou menos quando era uma menininha mais chata do que sou.

Eu trabalho com livros. Sou paga para ler livros. Sou paga para encontrar erros. Sou paga para encontrar algo fora do padrão. Sou paga para fazer adequações.

Digo que estou, às vezes, com um pé no trabalho de um ghost-writer. Aliás, já me perguntaram se eu era ghost-writer. Por um momento me senti orgulhosa disso. De alguém imaginar que eu pudesse ser ghost-writer. As possibilidades fazem meu mundo girar. “Não”, respondi.

Muitos de meus amigos conheci em editoras. Hoje tem o Facebook. Adiciono algumas editoras também. Adiciono algumas bibliotecas e centros culturais também. Adiciono redes sociais voltadas a livros.

Vou a algumas feiras de livros. Vou a livrarias. Na época da faculdade, quando não tinha grana, ia muito a sebos. Ia mais a bibliotecas. Toda semana. Gostava do cheiro de livros velhos. Gostava de andar pelos corredores. Observava as prateleiras. Decorava a localização dos assuntos. Literatura brasileira. Obras de referência. Religião. Literatura alemã. Filosofia. Sociologia. Comunicação. Humanas é aqui. Exatas pra lá. A seção de Arte era separada das demais.

Depois de um dia chato no trabalho, ia a uma livraria. Andava por entre estantes e mesas. Queria ouvi-los. Queria que me sussurrassem respostas. Eles tinham de saber tudo. Tinham de saber por que eu vivia triste. Por que eu acordava de manhã querendo não existir. Claro. Os livros não me responderam. Os livros não falavam. Os livros me mostravam fotos. Me mostravam letras. E só. Eu voltava pra casa mais triste. E isso se repetia. Era um vício. Idiota e egocêntrico. Como todos os vícios.

Há megalivrarias hoje. Quando era uma menininha mais chata do que sou, juntava trocados que minha mãe me dava. Ia à pequena livraria dentro do hipermercado. Olhava a mesma estante por uma hora. A mesma seção de infantojuvenis por uma hora. E comprava um livro. E depois um picolé ou chocolate. Ou um picolé de chocolate. Não no hipermercado.

...
(B)

Agora aparece no Facebook:

 “Você sempre vai estar mais elegante se a sua biblioteca for maior que seu guarda-roupa.”

“Uma casa cheia de livros é um jardim cheio de flores.”

“- O que queremos?
- Mais um livro novo!
- Mas já temos vários ainda não lidos!
- Isso não importa!”

“Você é o que você lê”

Claro. Vou ler Mein Kampf. Vou ler O doce veneno do escorpião. Vou ler O diário de um mago. Vou ler A erva do diabo. Vou ler Chapeuzinho vermelho. Vou ler On the road. Vou ler Fausto. Vou ler Quincas Borba. Vou ler O guia do mochileiro das galáxias. Vou ler a Bíblia cristã. Vou ler Quem mexeu no meu queijo. Tudo isso bem rápido. Sem digerir muita coisa. E vomitar minha existência.

Porque agora muita gente que tem acesso à internet lê. Porque cerca de 75% da população mundial não tem acesso à internet. Porque a leitura não se faz só através da internet. Porque nem tudo o que está na internet é verdade. Nem nos livros.

No Facebook: “Os livros são os degraus da imaginação”

Realidades construídas de realidades construídas de realidades construídas... desde que se sabe disso. Desde que se vive isso. Desde que se lê isso. Desde que se sonha e deseja. Sonha e deseja.

domingo, 20 de janeiro de 2013

23:23


Toca uma música dos Smiths da qual não sei o nome e que não costuma passar nas rádios da cidade. Estou feliz por um motivo que sei, mas não consigo expressar o que é, nem pra mim mesma. Botei Smiths porque estou contente. Isso me parece meio estranho.
Queria dizer que se ligasse esta noite, em uma hora cabalística qualquer, tipo 23:23 ou 1:1, eu estaria ouvindo Smiths, em vez de alguma banda nova e esquisita de um país do oriente. Porque qualquer banda nova e esquisita de um país do oriente não seria suficiente pra você ficar feliz e satisfeito. A banda nova e esquisita de um país do oriente não faria você me convidar de novo para dormir no seu quarto. Talvez nada tenha esse poder agora. Então, eu aceito. E por isso ouço Smiths.
Não sei cantar nenhuma música inteira. Muito menos dos Smiths. Acho que não sei nem um verso das músicas deles. Eu tinha comprado um cd deles, tipo greatest hits, mas acabou sendo esquecido no porta-luvas do carro de um ex-namorado que nunca mais vi, que hoje deve estar casado com uma japonesa de nome Susi.
Mas me lembro de quando saíamos para dançar e tocava uma música dos Smiths, dançávamos de modo mais animado. Uma das meninas do grupo até virava para o DJ e agradecia. Me lembro dessa cena, e tocava “Panic”. Nessa mesma casa e noite me lembro dos meninos comentando sobre um casal de lésbicas que estava dando uns amassos num canto da pista. Eu as vi e depois me virei pra dançar Smiths.
Mas tudo isso foi há um bom tempo. Estou contente e espero você ligar; mas você não vai fazer isso, não é mesmo? Eu aceito, e ouço Smiths. E nem vou ficar com pena de mim mesma quando tocar “How soon is now”, como se fazia. Acho que me lembrei de alguns versos agora.
“There is a light that never goes out”. Acho que me lembrei da vez em que, enquanto você me falava sobre a sua pós-graduação, porque eu tinha perguntado, eu olhava para a janela do boteco. Via as pessoas lá fora, sentadas nas mesinhas na calçada do boteco que ficava do outro lado da rua. E era uma noite meio quente, mas não era verão. E que nesse mesmo dia pensei “é a última vez que vamos nos ver na vida, não é mesmo?”. E porque eu quis me enganei. Porque liguei pra você, depois de cinco meses, porque te chamei para sair, me enganei. "There is a light that never goes out"

"To die by your side/ such a heavenly way to die" ou algo assim.

sábado, 19 de janeiro de 2013


- Logo depois que assisto a filmes franceses sinto uma incrível vontade de fumar.
-Por quê?
- Oras, os franceses fumam pra cacete. Bom, pelo menos nos filmes.
- Acho que nunca vi um filme francês.
- Não?! Eles são maravilhosos. Parecem sonhos.  Tem vida. Talvez mais que vida até!
- Que exagero!
- Exagero? São poéticos. Não seguem fórmulas. São humanos. Intensamente humanos.
- Falou a cult!
- Ah, que cult, o quê? Odeio que me chamem de cult. Que coisa idiota!
- Orra, calma! Falei brincando...
-Ah, que saco! Tô de saco cheio! Quero um cigarro! Quero viver num filme francês. Quero fumar pra caralho! Quero andar pelada pela casa sem olhares maliciosos sobre mim, como nos filmes franceses. Veja a nudez num filme francês e veja num filme brasileiro. Uma puta diferença!
- Você por acaso tá naqueles dias?
- Ah, não enche!
- Se eu te arranjar um cigarro, você promete melhorar seu humor?
Suspiro profundo.
-Não.
- Então, sei lá. Acho que vou dar uma volta.
- Não, fica. Desculpa.
- Você é muito de lua. Quer dizer... sei lá você muda de humor de uma hora pra outra! De um segundo pra outro!
- Eu sei. Desculpa.
-Afinal de contas, o que você quer?
- Não sei. Acho que eu quero algo que seja impossível.
Ri.
- Então, você sempre vai estar insatisfeita?
- É por aí. Infelizmente.