(A)
Eu adoro livros. Adoro o objeto livro. E muitas vezes o
conteúdo dele. Nem sei desde quando exatamente. Há muito tempo. Mais ou menos
quando era uma menininha mais chata do que sou.
Eu trabalho com livros. Sou paga para ler livros. Sou paga
para encontrar erros. Sou paga para encontrar algo fora do padrão. Sou paga
para fazer adequações.
Digo que estou, às vezes, com um pé no trabalho de um ghost-writer.
Aliás, já me perguntaram se eu era ghost-writer. Por um momento me senti
orgulhosa disso. De alguém imaginar que eu pudesse ser ghost-writer. As
possibilidades fazem meu mundo girar. “Não”, respondi.
Muitos de meus amigos conheci em editoras. Hoje tem o
Facebook. Adiciono algumas editoras também. Adiciono algumas bibliotecas e
centros culturais também. Adiciono redes sociais voltadas a livros.
Vou a algumas feiras de livros. Vou a livrarias. Na época da
faculdade, quando não tinha grana, ia muito a sebos. Ia mais a bibliotecas.
Toda semana. Gostava do cheiro de livros velhos. Gostava de andar pelos
corredores. Observava as prateleiras. Decorava a localização dos assuntos.
Literatura brasileira. Obras de referência. Religião. Literatura alemã.
Filosofia. Sociologia. Comunicação. Humanas é aqui. Exatas pra lá. A seção de
Arte era separada das demais.
Depois de um dia chato no trabalho, ia a uma livraria.
Andava por entre estantes e mesas. Queria ouvi-los. Queria que me sussurrassem
respostas. Eles tinham de saber tudo. Tinham de saber por que eu vivia triste.
Por que eu acordava de manhã querendo não existir. Claro. Os livros não me
responderam. Os livros não falavam. Os livros me mostravam fotos. Me mostravam letras.
E só. Eu voltava pra casa mais triste. E isso se repetia. Era um vício. Idiota e egocêntrico.
Como todos os vícios.
Há megalivrarias hoje. Quando era uma menininha mais chata
do que sou, juntava trocados que minha mãe me dava. Ia à pequena livraria
dentro do hipermercado. Olhava a mesma estante por uma hora. A mesma seção de
infantojuvenis por uma hora. E comprava um livro. E depois um picolé ou
chocolate. Ou um picolé de chocolate. Não no hipermercado.
...
(B)
Agora aparece no Facebook:
“Você sempre vai estar
mais elegante se a sua biblioteca for maior que seu guarda-roupa.”
“Uma casa cheia de livros é um jardim cheio de flores.”
“- O que queremos?
- Mais um livro novo!
- Mas já temos vários ainda não lidos!
- Isso não importa!”
“Você é o que você lê”
Claro. Vou ler Mein
Kampf. Vou ler O doce veneno do
escorpião. Vou ler O diário de um mago.
Vou ler A erva do diabo. Vou ler Chapeuzinho vermelho. Vou ler On the road. Vou ler Fausto. Vou ler Quincas Borba. Vou ler O guia
do mochileiro das galáxias. Vou ler a Bíblia
cristã. Vou ler Quem mexeu no meu queijo.
Tudo isso bem rápido. Sem digerir muita coisa. E vomitar minha existência.
Porque agora muita gente que tem acesso à internet lê.
Porque cerca de 75% da população mundial não tem acesso à internet. Porque a
leitura não se faz só através da internet. Porque nem tudo o que está na
internet é verdade. Nem nos livros.
No Facebook: “Os livros são os degraus da imaginação”
Realidades construídas de realidades construídas de
realidades construídas... desde que se sabe disso. Desde que se vive isso.
Desde que se lê isso. Desde que se sonha e deseja. Sonha e deseja.
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