Nem acredito que eu disse à psicóloga que queria escrever.
E agora penso “que bosta, por que eu disse isso?”. E não entendo por que passei as duas últimas sessões falando sobre isso. “Meu pai era jornalista”, eu disse. “Eu já gostava de livros antes de pensar em fazer uma faculdade”, eu disse. “Eu não sei o que vou escrever”, eu disse.
A psicóloga disse então “Pare de ser idiota. Escreva qualquer merda e seja feliz!”.
Não, não foi isso o que ela disse. Foi algo mais sutil. Algo como “permita-se tentar”.
“Tentar eu tento, minha senhora”, foi o que pensei.
“Então, deixe que os outros leiam e digam que tudo que você escreve é uma merda. Afinal, você precisa ouvir uns ‘nãos’ e observar como você é forte. Você não vai morrer se ouvir um ‘não’ e...”. Espera, espera! Acho que tô confundindo as psicólogas.
A coisa toda é mais tranquila. O ambiente é mais tranquilo. “Tudo bem? Como foi a sua semana?”, ela me pergunta. E eu respondo “foi tudo bem”, “foi indo”, “foi mais ou menos”, “foi uma droga”.
Passeei com a minha cachorra dia sim, dia não. Trabalhei alguns dias. Alguns capítulos de sociologia. Outros de geografia. No meio da leitura parava para anotar os nomes dos livros interessantes, que eu acho que algum dia irei ler. Ouvi minha colega de ginástica dizer que estava tomando antidepressivos e que por isso passou a última semana no banheiro, com diarreia. Fui ao médico. Tiraram uma radiografia do meu pé. Foi a minha primeira radiografia na vida. Vi meus ossos. Achei legal, apesar de estar com alguns problemas. No mesmo dia comi um bolo de damasco e disse a minha mãe que pedir bolo de damasco deve ser coisa de gente muito velha. Nem minha mãe pede isso. Fui a um restaurante russo com algumas amigas e amigas das minhas amigas. Fiquei entediada na frente do computador. Comecei um diário. Regime de três páginas por dia todas as manhãs. Faz três dias que esqueci de escrever no diário. Recebi convites “Minha amiga de Cidade-Tal vai vir pra cá no Carnaval. Vamos fazer alguma coisa?”, “E aí, vai rolar um boteco logo mais?”, “Aniversário da Bruna, no Bar X, vamos?”. Respondi “talvez”, “vai ter o aniversário da Bruna, no Bar X, vamos?”, “claro! Vou chamar pessoas”. Comecei a estudar francês. Agora sei que “chose” significa “coisa” e que “croire” significa “acreditar”. Ri com meu irmão enquanto discutíamos o alfabeto grego, adivinhávamos o nome do peixe que minha mãe tinha comprado, criticávamos uma música funk horrível, comentávamos sobre vídeos engraçados. Planejei passar o Carnaval assistindo filmes. Desisti de ir ao cinema pensando que muita gente ia ter a mesma ideia. Mas ia ser legal ir ao cinema. Queria ir a uma balada anticarnaval. Pesquisei sobre pós-graduação na internet. Foi aniversário do meu falecido pai. Uma tia me telefonou e me aconselhou: “Se estiver difícil arranjar namorado aí, vem aqui que tem muito homem. Você não pode ficar sozinha” . Tive vontade de dizer que era lésbica, só pra ela parar com esse blablablá. Ajudei um metrossexual maquiado a voltar pra casa, ou sei lá o quê, doando dois reais. Me senti meio imbecil fazendo isso. Me lembrei de ter ajudado um punk com um passe, quando ainda se usavam passes pra pegar ônibus. E me lembrei de também me sentir uma imbecil por isso. Dobrei a esquina, depois de ter saído da última sessão, pensando “por que eu assinalei a alternativa ‘penso em me matar, mas não teria coragem de fazer isso’?”. Depois fui ao mercado e comprei um hambúrguer de soja com ervas finas.
“Então. Tô pensando em escrever.”
Ela me olha com cara de parede bege.
“Eu não sei o que ainda. Mas, sei lá, queria escrever.”