eu estava no último andar
não havia como negar isso
eu sonhava com as nuvens
eu sonhava com o céu
e me deixa levar pelos pesadelos
virando estrelas em madrugadas nulas...
até ouvir
ESSA É A COISA MAIS IMBECIL QUE VOCÊ PODERIA FAZER AGORA!!!
VOCÊ ME ENVERGONHA, ME CONSTRANJE!!! ESCROTA!!!
e eu acreditei nisso
achava que não se podia ser imbecil
que não deveria constranger nem envergonhar ninguém
e eu não queria ser uma escrota (esse adjetivo ecoa)
Então me senti um nada
caindo
me desintegrando durante a queda
perfurando o concreto com o resto
indo ao centro da terra
e lá ficando, tentando encontrar algum canto
e depois voltei aos vermes
remoendo o estômago, corroendo pensamentos
Dexei-me apodrecer por algum tempo
Era preciso, fazer o quê
e depois de algum tempo resolvi voltar à superfície
ainda sonho com as nuvens e o céu
meus pesadelos são raros agora
... mas aquele prédio...
ele continua lá fazendo parte da paisagem
segunda-feira, 14 de março de 2011
sábado, 12 de março de 2011
eternidade
não cabem nos olhos a incerteza
não agarro com as mãos o tempo
não cravo os dentes nos pensamentos
escadas?
degraus
à frente
espiraladas?
E o resto são pedaços de nada
Salvo o ar, até a morte - sem ar
Salva a consciência?
Adormecer e despertar. Sempre
Latejar
Pulsar
Proporcionar
Lançar-se em ser na ilusão
não agarro com as mãos o tempo
não cravo os dentes nos pensamentos
escadas?
degraus
à frente
espiraladas?
E o resto são pedaços de nada
Salvo o ar, até a morte - sem ar
Salva a consciência?
Adormecer e despertar. Sempre
Latejar
Pulsar
Proporcionar
Lançar-se em ser na ilusão
Janelas
Tô aqui já fazem umas duas horas. Cara, isso é tempo, ein. Duas horas. Agora são exatamente 3h14 da manhã e ela não apagou a luz do quarto dela. Não consigo ver direito o que ela está fazendo lá. Às vezes acho que ela está olhando na minha direção, que ela está me enxergando, às vezes acho que ela não está nem aí. É meio esquisito. Não sei por que fico aqui, observando-a. Fico me perguntando porque ela de repente sai à janela de madrugada pra olhar sei-lá-eu-o-quê... As nuvens talvez?
Um dia ela disse que tinha me visto. Até me mandou uma mensagem no celular. Na verdade, eu até recebi a mensagem mas não sabia que era dela, ou melhor, sei lá, não dei muito crédito. Achei que ela tivesse me zoando, sei lá. Até que depois de um tempo ela tinha me dito que tinha me mandado a mensagem. Dizendo que não sabia se era mesmo eu que ela tinha visto da janela do quarto dela. Fiquei meio paranoico com essa história pra falar a verdade. Achei que ela estivesse me espionando. Quem sabe ela não seria uma psicopata? Mas como ela - e muito menos eu - nunca mais tocou no assunto, resolvi deixar pra lá. Quer dizer, mais ou menos.
Quase toda noite vejo ela chegando na casa dela. Vejo ela abrindo a janela. Colocando os sapatos na janela. Levando sua bolsa de um lado para o outro do quarto. Mexendo em uns negócios que acho que devem ser vasos de plantas. Vejo os pés dela, na janela. Ela deve apoiá-los no batente enquanto lê um livro. Acho que deve ser um livro, não sei. Nunca a vi pelada. Ela não se troca na frente da janela, já percebi. Às vezes, ela fecha a janela por alguns minutos e depois abre, com uma roupa diferente, com o cabelo que estava solto, preso.
Ontem ela não apareceu. Achei que talvez tivesse saído. Com a mãe. Com amigos. Com o namorado, talvez. Fiquei esperando, e nada. Quer dizer. Na verdade, eu estava aqui jogando no computador e às vezes dava uma olhada pra ver se ela aparecia, abria a janela e acendia a luz do quarto. Mas ela não apareceu.
E agora ela está lá. Não consigo vê-la, mas sei que está lá, porque agora a pouco a vi passando na frente da janela. O vulto dela andou da minha direita para a esquerda. Foi muito rápido. E como é meio longe, não dá pra ver direito. Fico aqui no escuro. Mas duas horas? Acho que é muito tempo. Por que estou até agora, aqui, nesta escuridão, tentando adivinhar o que ela está fazendo?
Um dia ela disse que tinha me visto. Até me mandou uma mensagem no celular. Na verdade, eu até recebi a mensagem mas não sabia que era dela, ou melhor, sei lá, não dei muito crédito. Achei que ela tivesse me zoando, sei lá. Até que depois de um tempo ela tinha me dito que tinha me mandado a mensagem. Dizendo que não sabia se era mesmo eu que ela tinha visto da janela do quarto dela. Fiquei meio paranoico com essa história pra falar a verdade. Achei que ela estivesse me espionando. Quem sabe ela não seria uma psicopata? Mas como ela - e muito menos eu - nunca mais tocou no assunto, resolvi deixar pra lá. Quer dizer, mais ou menos.
Quase toda noite vejo ela chegando na casa dela. Vejo ela abrindo a janela. Colocando os sapatos na janela. Levando sua bolsa de um lado para o outro do quarto. Mexendo em uns negócios que acho que devem ser vasos de plantas. Vejo os pés dela, na janela. Ela deve apoiá-los no batente enquanto lê um livro. Acho que deve ser um livro, não sei. Nunca a vi pelada. Ela não se troca na frente da janela, já percebi. Às vezes, ela fecha a janela por alguns minutos e depois abre, com uma roupa diferente, com o cabelo que estava solto, preso.
Ontem ela não apareceu. Achei que talvez tivesse saído. Com a mãe. Com amigos. Com o namorado, talvez. Fiquei esperando, e nada. Quer dizer. Na verdade, eu estava aqui jogando no computador e às vezes dava uma olhada pra ver se ela aparecia, abria a janela e acendia a luz do quarto. Mas ela não apareceu.
E agora ela está lá. Não consigo vê-la, mas sei que está lá, porque agora a pouco a vi passando na frente da janela. O vulto dela andou da minha direita para a esquerda. Foi muito rápido. E como é meio longe, não dá pra ver direito. Fico aqui no escuro. Mas duas horas? Acho que é muito tempo. Por que estou até agora, aqui, nesta escuridão, tentando adivinhar o que ela está fazendo?
sexta-feira, 4 de março de 2011
*
Tento achar um cantinho
Um frestinha onde encaixar
meu olhar atento aos movimentos
Com o dedo em riste capto
Os bons ventos que hão de chegar
Hão de chegar
Pela tempestade que está ali
Não há como negar, não há como negar
Os bons ventos hão de chegar
E se vem avião, ou lua cheia
No céu da minha janela há flores
Caminhos de pedras a me levar
Onde quero ir, do outro lado do mundo
Fugir um pouquinho dos dias-dias
Nas minhas horas vagas prefiro sonhar
Tirar conclusões é só diversão
Jogo pra valer no imaginar.
Tento achar um cantinho
Um frestinha onde encaixar
meu olhar atento aos movimentos
Com o dedo em riste capto
Os bons ventos que hão de chegar
Hão de chegar
Pela tempestade que está ali
Não há como negar, não há como negar
Os bons ventos hão de chegar
E se vem avião, ou lua cheia
No céu da minha janela há flores
Caminhos de pedras a me levar
Onde quero ir, do outro lado do mundo
Fugir um pouquinho dos dias-dias
Nas minhas horas vagas prefiro sonhar
Tirar conclusões é só diversão
Jogo pra valer no imaginar.
palavraslivres
Boca pequena do peixe em sublinhado instante de megera agonia passeia seus sonhos nos meus cabelos instantes absolutos de mágoa e tristeza nas notas de cem reais inexistentemente azuis oceânicos peixes do fundo domar azul. Bolhas. Labaredas estreladas e raio fúgidos. papagaio de meia tigela longe na lama da lontra lambusada de esguela me olha irônica e sombria. "Eu sabia, eu sabi" ela pensava. ela me dizia que nada ia me censurar, só dessa vez. Seja livre, Iara. dessa vez pule do prédio com uma venda branca nos olhos. eu perguntei "Por que brancas?" Ela disse que não sabia direito mas talvez isso pudesse ser algo assim romântico. Um suicídio romântico igual aqueles. Do Werther, lembra? Sim, sim. Werther. Eu chorei tanto lendo aquele livro. Meu coração virou coraçãozinho. Apertado de dar dó. hahaha ela riu. hahahah Riu de novo. Não, isso não tem graça. Vamos ficar aqui batendo nessas teclinhas porque tem a letra "t" e a letra "i" e a letra "l". Ah, e o som a batida é tão legal. As teclas sendo tecladas. Meu pai, é disso que me lembro. pela madrugada a dentro fumando e batendo nas teclinhas com a quela loucura insana compassada. A fumaça o cheiro de cigarro. Horríveis. mas não me importava porque sim. Parecia algo grandioso, meu pai estava trabalhando. ele era louco. diferente de outros pais. Eu adorava. Então cresci, achei que também queria ser assim. Trabalhar com teclinhas à noite. Mas não foi bem isso o que aconteceu. Por exemplo agora teclo sem parar já são quase 1h30 da manhã. mas faço isso apenas porque de certo modo é divertido e acho que não tenho nada melhor pra fazer neste exato momento. Embora eu pense que devo parar porque minhas pálpebras estão ficando pesadas e este texto pode ficar muito longo. eu tentei dar um aspecto surreal pra coisa no começo. queria, sério, era ir por esse caminho, mas, enfim, acabei me desviando. Termino agora, então pra você se ver livre de mim caro leitor invisível.
a casa
Eu desço a rua logo a noite quando venta mais no morro. E do outro lado quero, desejo muito ver sua casa. E quero, desejo muito não desejar isso. Sigo meu caminho. Viro na esquina. Chego ao portão de minha casa. Quase todo o dia. Depois do trabalho. Talvez às sete horas da noite.
É bem provável que eu esteja tendo mais um de meus delírios. Mas geralmente eles são tão fortes que podem se tornar reais. Então, penso que talvez eu devesse bater à porta de sua casa pra me desculpar por invadir assim a sua realidade. E sua história que não tinha absolutamente nada a ver com a minha. Eu nasci há um tempo antes. Antes, sim, bem antes. Você não estava lá, ninguém disse que você estava lá. E de repente desejo somente ver sua casa esteja acesa. Quem sabe. É uma esperança. Sei que você está vivo porque acendeu a luz de sua casa. Não sei quem você é. Mas sei onde mora. É bem ali, naquela casa. E porque há um certo sentimento de culpa em tudo isso talvez eu devesse explicar. Algum dia quem sabe. Me sinto horrível. Me sinto assassina. Uma criminosa. Minha consciência me castiga, ela sabe. Ouço sua voz. Então, tento apagar tudo isso. Tento me livrar dessa coisa, desse peso que me faz sentir desprezo por mim mesma. Meus pesados passos andam tortos. Subo escadas com dificuldades. Mas descer aquela rua é fácil. A maníaca, a obsessiva, a depressiva. Me dê um pouco de luz.
É bem provável que eu esteja tendo mais um de meus delírios. Mas geralmente eles são tão fortes que podem se tornar reais. Então, penso que talvez eu devesse bater à porta de sua casa pra me desculpar por invadir assim a sua realidade. E sua história que não tinha absolutamente nada a ver com a minha. Eu nasci há um tempo antes. Antes, sim, bem antes. Você não estava lá, ninguém disse que você estava lá. E de repente desejo somente ver sua casa esteja acesa. Quem sabe. É uma esperança. Sei que você está vivo porque acendeu a luz de sua casa. Não sei quem você é. Mas sei onde mora. É bem ali, naquela casa. E porque há um certo sentimento de culpa em tudo isso talvez eu devesse explicar. Algum dia quem sabe. Me sinto horrível. Me sinto assassina. Uma criminosa. Minha consciência me castiga, ela sabe. Ouço sua voz. Então, tento apagar tudo isso. Tento me livrar dessa coisa, desse peso que me faz sentir desprezo por mim mesma. Meus pesados passos andam tortos. Subo escadas com dificuldades. Mas descer aquela rua é fácil. A maníaca, a obsessiva, a depressiva. Me dê um pouco de luz.
Gosto de livro
Meu amigo e eu marcamos de nos encontrar em uma livraria no centro da cidade. Como quase sempre, cheguei dez minutos atrasada. Na entrada ele não estava, então resolvi procurá-lo entre as estantes. Era bem provável que estivesse na parte de literatura estrangeira. Olhei os três corredores e nada. Talvez ele ainda não tivesse chegado. "Se ao menos tivesse celular eu poderia ligar pra ele...", pensei. Enfim, resolvi dar mais uma checada geral em toda a livraria. Eis que de repente o avisto de longe, no fundo do corredor de dicionários de língua estrangeira. Fiquei feliz por finalmente tê-lo encontrado. Caminhava em sua direção já pensando na desculpa que ia dar pelo meu atraso. Ele folheava um dicionário com as duas mãos, parecia entretido. Quando eu estava para abrir a minha boca para chamá-lo, percebi que ele aproximava o livro aberto de seu rosto, mais precisamente de sua boca. Surpresa e curiosa, parei de caminhar e me pus a observá-lo. Ele calmamente aproximou o livro de sua boca e deu uma lambida generosa em uma das páginas, deixando um rastro molhado que brilhava, refletindo a luz da loja. Fiquei chocada. Não sabia o que fazer, só sabia que sentia que eu não deveria estar ali vendo aquela cena. Quando dei por mim, ele já tinha me olhado de soslaio, assustado, desviara o olhar. Num gesto brusco tentou se livrar do dicionário afastando-o de seu rosto. Um sorrisinho nervoso brotou num dos cantos da boca. Olhava pra frente, como se estivesse muito concentrado na tarefa de,desesperadamente, encaixar o livro de volta à prateleira e de não sair correndo dali.
atravessando a rua
A mão vazia na noite balançava no ar gelado da carência afetiva hormonal do coração fraco e tonto. "Se eu fumasse, estaria fumando agora", ela pensou enquanto aguardava o farol fechar para atravessar a rua. "Um cigarro assim, com aquela pontinha acesa, a fumacinha saindo, aquele cheiro horrível, consumindo minhas horas nesse mundo, mas confortando por alguns minutinhos meu pobre coração cansado de sofrer, como aquelas músicas, poemas, frases bregas, enfim...". Vermelho. Ela atravessa a rua, fechando a blusa na altura dos peitos com a mão direita. Alcança o outro lado da rua. "Se cigarro não prejudicasse tanto a saúde, eu fumaria".
reflexos
Vi sua cabeça deitada sobre seu braço.
Vi seu cabelo se encolhendo sobre sua cabeça.
Vi a ponta de sua orelha direta, pálida de frio.
Vi os pelos de seus braços, confortáveis.
Vi seus olhos crescendo em minha direção.
Vi os seus gestos disfarçados de casualidade.
Ouvi sua voz sendo descartada como um sonho qualquer.
Sim, você estava lá na minha frente.
E, no entanto, aquilo tudo não era você.
Era eu.
Vi seu cabelo se encolhendo sobre sua cabeça.
Vi a ponta de sua orelha direta, pálida de frio.
Vi os pelos de seus braços, confortáveis.
Vi seus olhos crescendo em minha direção.
Vi os seus gestos disfarçados de casualidade.
Ouvi sua voz sendo descartada como um sonho qualquer.
Sim, você estava lá na minha frente.
E, no entanto, aquilo tudo não era você.
Era eu.
A onda dos cardumes
Letras flutuando nessa imensidão branca
Cardumes negros passeando na onda
Interligando nossos mundos e talvez algo mais
Dançando nos pensamentos sedentos
Não solte minha mão, termino mais um parágrafo
Acompanhe o compasso da respiração
Pálpebras pulsam nosso caminhar
É tão fácil não resistir, não resistir
Me deixo levar
Cardumes negros passeando na onda
Interligando nossos mundos e talvez algo mais
Dançando nos pensamentos sedentos
Não solte minha mão, termino mais um parágrafo
Acompanhe o compasso da respiração
Pálpebras pulsam nosso caminhar
É tão fácil não resistir, não resistir
Me deixo levar
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