sexta-feira, 4 de março de 2011

Gosto de livro

Meu amigo e eu marcamos de nos encontrar em uma livraria no centro da cidade. Como quase sempre, cheguei dez minutos atrasada. Na entrada ele não estava, então resolvi procurá-lo entre as estantes. Era bem provável que estivesse na parte de literatura estrangeira. Olhei os três corredores e nada. Talvez ele ainda não tivesse chegado. "Se ao menos tivesse celular eu poderia ligar pra ele...", pensei. Enfim, resolvi dar mais uma checada geral em toda a livraria. Eis que de repente o avisto de longe, no fundo do corredor de dicionários de língua estrangeira. Fiquei feliz por finalmente tê-lo encontrado. Caminhava em sua direção já pensando na desculpa que ia dar pelo meu atraso. Ele folheava um dicionário com as duas mãos, parecia entretido. Quando eu estava para abrir a minha boca para chamá-lo, percebi que ele aproximava o livro aberto de seu rosto, mais precisamente de sua boca. Surpresa e curiosa, parei de caminhar e me pus a observá-lo. Ele calmamente aproximou o livro de sua boca e deu uma lambida generosa em uma das páginas, deixando um rastro molhado que brilhava, refletindo a luz da loja. Fiquei chocada. Não sabia o que fazer, só sabia que sentia que eu não deveria estar ali vendo aquela cena. Quando dei por mim, ele já tinha me olhado de soslaio, assustado, desviara o olhar. Num gesto brusco tentou se livrar do dicionário afastando-o de seu rosto. Um sorrisinho nervoso brotou num dos cantos da boca. Olhava pra frente, como se estivesse muito concentrado na tarefa de,desesperadamente, encaixar o livro de volta à prateleira e de não sair correndo dali.

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