terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Livros


(A)

Eu adoro livros. Adoro o objeto livro. E muitas vezes o conteúdo dele. Nem sei desde quando exatamente. Há muito tempo. Mais ou menos quando era uma menininha mais chata do que sou.

Eu trabalho com livros. Sou paga para ler livros. Sou paga para encontrar erros. Sou paga para encontrar algo fora do padrão. Sou paga para fazer adequações.

Digo que estou, às vezes, com um pé no trabalho de um ghost-writer. Aliás, já me perguntaram se eu era ghost-writer. Por um momento me senti orgulhosa disso. De alguém imaginar que eu pudesse ser ghost-writer. As possibilidades fazem meu mundo girar. “Não”, respondi.

Muitos de meus amigos conheci em editoras. Hoje tem o Facebook. Adiciono algumas editoras também. Adiciono algumas bibliotecas e centros culturais também. Adiciono redes sociais voltadas a livros.

Vou a algumas feiras de livros. Vou a livrarias. Na época da faculdade, quando não tinha grana, ia muito a sebos. Ia mais a bibliotecas. Toda semana. Gostava do cheiro de livros velhos. Gostava de andar pelos corredores. Observava as prateleiras. Decorava a localização dos assuntos. Literatura brasileira. Obras de referência. Religião. Literatura alemã. Filosofia. Sociologia. Comunicação. Humanas é aqui. Exatas pra lá. A seção de Arte era separada das demais.

Depois de um dia chato no trabalho, ia a uma livraria. Andava por entre estantes e mesas. Queria ouvi-los. Queria que me sussurrassem respostas. Eles tinham de saber tudo. Tinham de saber por que eu vivia triste. Por que eu acordava de manhã querendo não existir. Claro. Os livros não me responderam. Os livros não falavam. Os livros me mostravam fotos. Me mostravam letras. E só. Eu voltava pra casa mais triste. E isso se repetia. Era um vício. Idiota e egocêntrico. Como todos os vícios.

Há megalivrarias hoje. Quando era uma menininha mais chata do que sou, juntava trocados que minha mãe me dava. Ia à pequena livraria dentro do hipermercado. Olhava a mesma estante por uma hora. A mesma seção de infantojuvenis por uma hora. E comprava um livro. E depois um picolé ou chocolate. Ou um picolé de chocolate. Não no hipermercado.

...
(B)

Agora aparece no Facebook:

 “Você sempre vai estar mais elegante se a sua biblioteca for maior que seu guarda-roupa.”

“Uma casa cheia de livros é um jardim cheio de flores.”

“- O que queremos?
- Mais um livro novo!
- Mas já temos vários ainda não lidos!
- Isso não importa!”

“Você é o que você lê”

Claro. Vou ler Mein Kampf. Vou ler O doce veneno do escorpião. Vou ler O diário de um mago. Vou ler A erva do diabo. Vou ler Chapeuzinho vermelho. Vou ler On the road. Vou ler Fausto. Vou ler Quincas Borba. Vou ler O guia do mochileiro das galáxias. Vou ler a Bíblia cristã. Vou ler Quem mexeu no meu queijo. Tudo isso bem rápido. Sem digerir muita coisa. E vomitar minha existência.

Porque agora muita gente que tem acesso à internet lê. Porque cerca de 75% da população mundial não tem acesso à internet. Porque a leitura não se faz só através da internet. Porque nem tudo o que está na internet é verdade. Nem nos livros.

No Facebook: “Os livros são os degraus da imaginação”

Realidades construídas de realidades construídas de realidades construídas... desde que se sabe disso. Desde que se vive isso. Desde que se lê isso. Desde que se sonha e deseja. Sonha e deseja.

domingo, 20 de janeiro de 2013

23:23


Toca uma música dos Smiths da qual não sei o nome e que não costuma passar nas rádios da cidade. Estou feliz por um motivo que sei, mas não consigo expressar o que é, nem pra mim mesma. Botei Smiths porque estou contente. Isso me parece meio estranho.
Queria dizer que se ligasse esta noite, em uma hora cabalística qualquer, tipo 23:23 ou 1:1, eu estaria ouvindo Smiths, em vez de alguma banda nova e esquisita de um país do oriente. Porque qualquer banda nova e esquisita de um país do oriente não seria suficiente pra você ficar feliz e satisfeito. A banda nova e esquisita de um país do oriente não faria você me convidar de novo para dormir no seu quarto. Talvez nada tenha esse poder agora. Então, eu aceito. E por isso ouço Smiths.
Não sei cantar nenhuma música inteira. Muito menos dos Smiths. Acho que não sei nem um verso das músicas deles. Eu tinha comprado um cd deles, tipo greatest hits, mas acabou sendo esquecido no porta-luvas do carro de um ex-namorado que nunca mais vi, que hoje deve estar casado com uma japonesa de nome Susi.
Mas me lembro de quando saíamos para dançar e tocava uma música dos Smiths, dançávamos de modo mais animado. Uma das meninas do grupo até virava para o DJ e agradecia. Me lembro dessa cena, e tocava “Panic”. Nessa mesma casa e noite me lembro dos meninos comentando sobre um casal de lésbicas que estava dando uns amassos num canto da pista. Eu as vi e depois me virei pra dançar Smiths.
Mas tudo isso foi há um bom tempo. Estou contente e espero você ligar; mas você não vai fazer isso, não é mesmo? Eu aceito, e ouço Smiths. E nem vou ficar com pena de mim mesma quando tocar “How soon is now”, como se fazia. Acho que me lembrei de alguns versos agora.
“There is a light that never goes out”. Acho que me lembrei da vez em que, enquanto você me falava sobre a sua pós-graduação, porque eu tinha perguntado, eu olhava para a janela do boteco. Via as pessoas lá fora, sentadas nas mesinhas na calçada do boteco que ficava do outro lado da rua. E era uma noite meio quente, mas não era verão. E que nesse mesmo dia pensei “é a última vez que vamos nos ver na vida, não é mesmo?”. E porque eu quis me enganei. Porque liguei pra você, depois de cinco meses, porque te chamei para sair, me enganei. "There is a light that never goes out"

"To die by your side/ such a heavenly way to die" ou algo assim.

sábado, 19 de janeiro de 2013


- Logo depois que assisto a filmes franceses sinto uma incrível vontade de fumar.
-Por quê?
- Oras, os franceses fumam pra cacete. Bom, pelo menos nos filmes.
- Acho que nunca vi um filme francês.
- Não?! Eles são maravilhosos. Parecem sonhos.  Tem vida. Talvez mais que vida até!
- Que exagero!
- Exagero? São poéticos. Não seguem fórmulas. São humanos. Intensamente humanos.
- Falou a cult!
- Ah, que cult, o quê? Odeio que me chamem de cult. Que coisa idiota!
- Orra, calma! Falei brincando...
-Ah, que saco! Tô de saco cheio! Quero um cigarro! Quero viver num filme francês. Quero fumar pra caralho! Quero andar pelada pela casa sem olhares maliciosos sobre mim, como nos filmes franceses. Veja a nudez num filme francês e veja num filme brasileiro. Uma puta diferença!
- Você por acaso tá naqueles dias?
- Ah, não enche!
- Se eu te arranjar um cigarro, você promete melhorar seu humor?
Suspiro profundo.
-Não.
- Então, sei lá. Acho que vou dar uma volta.
- Não, fica. Desculpa.
- Você é muito de lua. Quer dizer... sei lá você muda de humor de uma hora pra outra! De um segundo pra outro!
- Eu sei. Desculpa.
-Afinal de contas, o que você quer?
- Não sei. Acho que eu quero algo que seja impossível.
Ri.
- Então, você sempre vai estar insatisfeita?
- É por aí. Infelizmente.