Hoje cheguei uns 10 minutos adiantada para a consulta com a
psiquiatra. Tive que passar um tanto de tempo na sala de espera. Dá tempo de
beber um copo d’água calmamente, procurar alguma revista interessante para
folhear que não seja a Veja ou Caras (ou alguma genérica que de tão sem
importância não me lembro o nome).
Nisso, existem as pessoas. Os outros pacientes. Os outros
maluquinhos que estão no mesmo barco que você.
Antes de eu entrar no edifício do consultório, antes de
dobrar a esquina que dá na ruela do edifício do consultório, ultrapasso com
passos firmes um moleque que anda na minha frente de um modo molenga. Mas não
um molenga qualquer, imagine um robô molenga querendo andar rápido. Assim era o
moleque. Aparentemente descendente de japoneses. Ele carregava uma dessas
bolsas a tira colo cheio de botons coloridinhos. O que mais me chamou a
atenção foi o fato de os botons estarem dispostos um ao lado do outro, em duas
fileiras retas. Ah, e também reparei que ele andava com a mão direita esticada.
Os dedos não estavam tão retos quanto o braço, mas pareciam tensos. Me fez
lembrar de um primo meu.
Ultrapassando o moleque, aperto o passo porque acho que
tenho chances de chegar atrasada. Diante do portão branco do edifício, que na
verdade é uma casa, aperto o botão do interfone. Depois de um tempo esperando,
ouço o clique do portão. Ao fechá-lo atrás de mim, vejo o moleque acenando para
que eu deixe o portão aberto. É, ele é um os pacientes. Tão maluco quanto eu. E, ao
vê-lo de frente, vejo que não é tão moleque assim. Deve ter uns vinte e tantos
anos. Sei lá.
Ao entrar na recepção/sala de espera o lado esquerdo há um
homem grandalhão segurando uma sacola de pano, com ar angustiado. Ele balança o
corpo levemente pra frente e pra trás. Eu sinto angústia ao vê-lo, porque
parece que ele está sofrendo.
Do lado direito um senhor de boina está sentado ao lado de
uma mulher um pouco mais jovem, provavelmente sua filha. Ela mostra a ele fotos
do seu celular e comenta alto “essa aqui foi a pizza que a gente comeu no
sábado”.
Me dirijo à recepcionista. “Tenho consulta com a Dra. A.”.
Entrego a carteirinha do convênio médico e vou até o bebedouro pra beber o copo
d’água. Faz um calor desgraçado. O moleque que não é moleque é cumprimentado
pela recepcionista. Talvez ele deva bater ponto lá toda semana. Ele senta na ponta
o sofá, perto do bebedouro, pega o celular, e aperta os botões, ou finge que
aperta e que está vendo algo interessante, cantarolando a música que toca no
rádio da recepção/sala de espera. Cantarola desafinado. “Básico”, penso.
Volto ao balcão da recepcionista porque tenho de assinar um
formulário para o meu convênio médico. Depois sento na outra ponta do sofá onde
está o moleque que não é moleque. A minha frente continuam pai e filha vendo as
fotos do celular enquanto caço uma revista interessante pra folhear. “Ah, você
tira fotos para não esquecer, né”, diz o senhor para filha. “Não, mas olha que
bonita essa estrada. Olha essa árvore!”. Acho uma revista Exame, a qual, depois de folhear, concluí que não é melhor que uma Veja.
O cara grandalhão parece cada vez mais inquieto. Murmura
algumas coisas. Boceja um “nossa, que sono!” com uma voz grave. E agarra sua
sacola de pano precisa. Uma mulher com a cara fechada chega, diz algo à recepcionista.
Depois de olhar o grandalhão por um tempo senta ao meu lado e fica tensamente
imóvel. Logo em seguida chega outra mulher que também é recebida pela
recepcionista com simpatia. “De cabelos longos?! Quando você veio aqui tava
curtinho. Ah, foi por causa do casamento, né.” Essa mulher senta do lado do
grandalhão e começa a mexer no celular.
Enquanto finjo folhear uma revista de decoração de casas, fico
pensando no que será que o grandalhão tem. Será que ele pode surtar do nada e
bater na mulher que tá do lado dele? Será que toma uns medicamentos pesados?
Será que ele sofre muito? Tenho dó. E de repente reparo que o moleque que não é
moleque também balança levemente o tronco pra frente e pra trás, cantarolando
outra música, mexendo no celular. “Esse deve ser hiperativo. E deve ter
dificuldade em se relacionar com as pessoas”, penso. A que está do meu lado
continua imóvel, não reparo se ela pisca ou se respira. Na verdade, eu não me
viro diretamente pra ela. Tento observá-la com o canto do olho. Talvez ela
tenha depressão. A do lado do grandalhão também. O senhor e sua filha? Não faço
ideia. Mas todos ali estão com algum problema mental. Já imaginou isso? Estar numa
sala onde a maioria das pessoas é “gente perturbada”?
Pois é, e eu sou uma dessas “perturbadas” (ouvi isso de um
cara que tentava impressionar a moça que estava com ele na Livraria Cultura de
Artes, quando folheavam um livro da Diane Arbus: “Essa daí, você sabe, né, era
uma perturbada. Se matou.”). Bom, até que escrevendo isso me vejo com um certo
privilégio de ser “perturbada” como a Diane Arbus. Oh, tenho algo em comum com
essa fotógrafa excepcional!
E estamos ali no mesmo barco, procurando soluções para
nossos problemas. Naquela sala, aguardando nossos psiquiatras.