quarta-feira, 9 de julho de 2014

Conversas paralelas

- Meu, cê nem sabe... Ontem meu irmão contou umas coisas escabrosas.
- Tipo?
- Cara, cê tá ligado que ele entra na deep web... Assim, escondido dos meus pais...
- Ãh.
- Nossa, ele me falou uns negócios nervosos... tipo, cê tá ligado que existe uma sociedade secreta aí e tals?
- Os iluminati?
- Nem... que mané iluminati! Outras paradas... tipo uns caras aí que... meu, uma sociedade secreta de gente que não tem Facebook, Instagram, esses bagulho aí...
- Ah, falou...
- Não, meu, é quente, é quente! E... tipo... meu, tem uns que nem celular tem.
- Caraio! Que loco!
- Muito, meu! Eu também duvidei, mas, meu, é sério...
- Wi-fi zero, então...
- Zerão. Zeraço!
- Nossa, mano, o que essas pessoa toma no café da manhã?
- Nossa, sei lá... devem ser canibais... eles num devem ter amor à vida.
- Deve ser uma seita bizarra.
- Foda...
- E se eles andam entre a gente assim? Mano, que bizarro! Como a gente vai saber?
- Cara, sei lá... tipo, eles devem ser igual a Mística dos X-Men, tá ligado?
- Mutantes... que transforma e tals?
- É, fica igual assim, tá ligado? Igual a gente normal, assim, que vai trabalhar. Tipo eu...
- Pô, a Mística é mó gostosa...
- E azul.
- E ruiva.
- E azul...
- Mas, né. Comida... Você já viu comida azul?
- Bota umas anilina, fica.
- Smurfado.
- É, daquele filme também...
- Smurfs?
- Não, outro...
- Ah, sei. Smurf.
- Para! É outro, que tem lá uma sociedade tals. E os caras é tudo azul. Sei lá, tipo a Mística.
- Os smurfs.
- Ah, vá se foder!
- Avatar é a sociedade secreta da Mística.
- Mas eles não são ruivos.
- Pra que tem farmácia? Vai lá, compra umas tintas...

Merengue Light Fajuto

Curso: Quero Comer Alguma Coisa

Bibliografia obrigatória para a disciplina Merengue Light Fajuto

IAROKKA, I. A difícil arte de esmagar morangos não tão maduros com as mãos. In: ______. Me deu uns cinco minutos na cozinha. 5. ed. São Paulo: Editora Abobrinha, 2012. v. 2.
IAROKKA, I. Como é que eu vou esfarelar esse suspiro enorme com uma colher de sobremesa? In: _____. Me deu uns cinco minutos na cozinha. 5. ed. São Paulo: Editora Abobrinha, 2012. v. 1.

***

Texto de um blog meu que apaguei hoje.

sábado, 31 de maio de 2014

exercício 1

A porta estava aberta pela metade. Entrei no apartamento. O lugar parecia maior por estar quase vazio. Da janela grande entrava a luz da manhã. No chão, uns jornais velhos e alguns parafusos jogados. Não queria sujar meu tênis novo, fui andando com cuidado. Via respingo de tinta amarela no chão. O apartamento cheira a reforma, a tinta látex, a pó, que vontade de espirrar.
- Porra, cê tá aí! Que susto! - ele gritou, me assustando. Segurava um rolo de pintar parede. Escorria tinta amarela pelo cabo. O pingo amarelo ia na direção da mão dele.
- Foi mal... - conferi se não havia tinta amarela no meu tênis.
- E aí? O que achou?
- Sua mão vai ficar amarela.
- Ah, não esquenta... Gostou? - ele abriu os braços pra se referir ao apartamento. Estava animado. Tinta amarela respingou no chão.
- Legal. - As teias de aranha no canto entre o teto a parede estremeceram. Um avião passava.
- Vem cá. Chega mais. - o cabelo tinha caspas amarelas. Ou seria sucrilhos?
- É... não quero sujar meu tênis... É novo. Foi mal. - queria protegê-los com as mãos. Enfiar em sacos plásticos. Que droga!
- Ah, que frescura! Vamos estrear! - ele vinha com o rolo na minha direção e ria.
-Não! Nem fodendo!  - corri pra cozinha.
O apartamento não era grande nem pequeno. Um elefante solitário e depressivo poderia viver ali. Um jaula com um certo conforto e charme. Ficava no centro, perto do metrô. O pai do Roberto viveu ali por um bom tempo, acho que por uns dez anos, antes de morrer. Anos de bebedeira. Anos de mentiras. Sempre estava tudo bem. O Roberto me contava.
- Roberto, que isso? Pizza? - abria uma caixa de papelão manchada de óleo. O cheiro era de catupiry frio.
- Café da manhã. Quer? É de ontem.
Peguei um pedaço e dei uma mordida. O catupiry descia gelado pela garganta. Estranho estar lá. Tudo agora parecia estar bem, agora que o pai do Roberto tinha morrido. O ar parecia mais leve. A mãe dele me parecia mais jovem. Preocupações envelhecem. O Roberto andava contente, animado. Ainda mais com o apartamento. Fazia planos, queria viajar. Não sei se de alguma forma estava eu estava incluída nisso. Sei lá se eu queria estar. No fundo, acho que não. Tinha que estudar, terminar a faculdade e não engravidar. Deus me livre de ter um filho com o Roberto.
- Bonito tênis. - ele esfregava as mãos debaixo da torneira, tentando tirar a crosta de tinta amarela das mãos. - você sabe que eu sempre tive tara por tênis... Um fetiche, sabe...
- Ah, falou...
- É sério! Já viu uns filmes pornôs dos anos 80? Umas minas transando de tênis na academia... - eu realmente não quero ter um filho com o Roberto. - Bateu mó tesão agora...
- Tó, come uma pizza que o tesão passa... - passo a caixa da pizza pra ele. - Gostei da cor. Amarelo é alegre.
Ele senta em cima da mesa que está cheia de latas de tinta. Come dois pedaços de pizza como se estivesse dois dias sem comer. Elas acabam em dois segundos. Olha para as paredes lotadas de azulejos brancos encardidos. Alguns respingo de gosma de cor de vômito estão grudados na parede perto de onde ficava a geladeira. Apesar de tudo, acho que o pai do Roberto até deveria ser uma boa pessoa. Só o vi uma vez. Quando nos encontramos por acaso na feira de discos perto dali. Ele comprou o "Le it be" dos Beatles. Eu nem conhecia esse disco na época. Ele começou a cantarolar "Across the universe" sorrindo, olhando a contracapa do álbum. Roberto revirou os olhos, estava de mau humor. "Nothing's gonna change my world".







sexta-feira, 4 de abril de 2014

Flores flores flores

Flores flores flores
Sabores
Calores
Amores
Fatores
Motores

Dores dores dores
Rumores
Pudores
Tensores
Temores
Bolores

terça-feira, 1 de abril de 2014

possibilidade

Compro para ter a possibilidade
Pílula de papel, abridor de latas
Que me dê fome e sede de mais
Que me abra o desejo e a vontade
Enfim, a necessidade de ter, de ser, de crer
No pulsar da lua, na respiração do sol,
Nos passos trincados dos chinelos pela rua
Mas peço, amor, seja razão
Razão, seja amor

A vida quer tomar um arzinho para espairecer

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Na sala de espera

Hoje cheguei uns 10 minutos adiantada para a consulta com a psiquiatra. Tive que passar um tanto de tempo na sala de espera. Dá tempo de beber um copo d’água calmamente, procurar alguma revista interessante para folhear que não seja a Veja ou Caras (ou alguma genérica que de tão sem importância não me lembro o nome).

Nisso, existem as pessoas. Os outros pacientes. Os outros maluquinhos que estão no mesmo barco que você.

Antes de eu entrar no edifício do consultório, antes de dobrar a esquina que dá na ruela do edifício do consultório, ultrapasso com passos firmes um moleque que anda na minha frente de um modo molenga. Mas não um molenga qualquer, imagine um robô molenga querendo andar rápido. Assim era o moleque. Aparentemente descendente de japoneses. Ele carregava uma dessas bolsas a tira colo cheio de botons coloridinhos. O que mais me chamou a atenção foi o fato de os botons estarem dispostos um ao lado do outro, em duas fileiras retas. Ah, e também reparei que ele andava com a mão direita esticada. Os dedos não estavam tão retos quanto o braço, mas pareciam tensos. Me fez lembrar de um primo meu.
Ultrapassando o moleque, aperto o passo porque acho que tenho chances de chegar atrasada. Diante do portão branco do edifício, que na verdade é uma casa, aperto o botão do interfone. Depois de um tempo esperando, ouço o clique do portão. Ao fechá-lo atrás de mim, vejo o moleque acenando para que eu deixe o portão aberto. É, ele é um os pacientes. Tão maluco quanto eu. E, ao vê-lo de frente, vejo que não é tão moleque assim. Deve ter uns vinte e tantos anos. Sei lá.
Ao entrar na recepção/sala de espera o lado esquerdo há um homem grandalhão segurando uma sacola de pano, com ar angustiado. Ele balança o corpo levemente pra frente e pra trás. Eu sinto angústia ao vê-lo, porque parece que ele está sofrendo.
Do lado direito um senhor de boina está sentado ao lado de uma mulher um pouco mais jovem, provavelmente sua filha. Ela mostra a ele fotos do seu celular e comenta alto “essa aqui foi a pizza que a gente comeu no sábado”.
Me dirijo à recepcionista. “Tenho consulta com a Dra. A.”. Entrego a carteirinha do convênio médico e vou até o bebedouro pra beber o copo d’água. Faz um calor desgraçado. O moleque que não é moleque é cumprimentado pela recepcionista. Talvez ele deva bater ponto lá toda semana. Ele senta na ponta o sofá, perto do bebedouro, pega o celular, e aperta os botões, ou finge que aperta e que está vendo algo interessante, cantarolando a música que toca no rádio da recepção/sala de espera. Cantarola desafinado. “Básico”, penso.
Volto ao balcão da recepcionista porque tenho de assinar um formulário para o meu convênio médico. Depois sento na outra ponta do sofá onde está o moleque que não é moleque. A minha frente continuam pai e filha vendo as fotos do celular enquanto caço uma revista interessante pra folhear. “Ah, você tira fotos para não esquecer, né”, diz o senhor para filha. “Não, mas olha que bonita essa estrada. Olha essa árvore!”. Acho uma revista Exame, a qual, depois de folhear, concluí que não é melhor que uma Veja.
O cara grandalhão parece cada vez mais inquieto. Murmura algumas coisas. Boceja um “nossa, que sono!” com uma voz grave. E agarra sua sacola de pano precisa. Uma mulher com a cara fechada chega, diz algo à recepcionista. Depois de olhar o grandalhão por um tempo senta ao meu lado e fica tensamente imóvel. Logo em seguida chega outra mulher que também é recebida pela recepcionista com simpatia. “De cabelos longos?! Quando você veio aqui tava curtinho. Ah, foi por causa do casamento, né.” Essa mulher senta do lado do grandalhão e começa a mexer no celular.
Enquanto finjo folhear uma revista de decoração de casas, fico pensando no que será que o grandalhão tem. Será que ele pode surtar do nada e bater na mulher que tá do lado dele? Será que toma uns medicamentos pesados? Será que ele sofre muito? Tenho dó. E de repente reparo que o moleque que não é moleque também balança levemente o tronco pra frente e pra trás, cantarolando outra música, mexendo no celular. “Esse deve ser hiperativo. E deve ter dificuldade em se relacionar com as pessoas”, penso. A que está do meu lado continua imóvel, não reparo se ela pisca ou se respira. Na verdade, eu não me viro diretamente pra ela. Tento observá-la com o canto do olho. Talvez ela tenha depressão. A do lado do grandalhão também. O senhor e sua filha? Não faço ideia. Mas todos ali estão com algum problema mental. Já imaginou isso? Estar numa sala onde a maioria das pessoas é “gente perturbada”?
Pois é, e eu sou uma dessas “perturbadas” (ouvi isso de um cara que tentava impressionar a moça que estava com ele na Livraria Cultura de Artes, quando folheavam um livro da Diane Arbus: “Essa daí, você sabe, né, era uma perturbada. Se matou.”). Bom, até que escrevendo isso me vejo com um certo privilégio de ser “perturbada” como a Diane Arbus. Oh, tenho algo em comum com essa fotógrafa excepcional!


E estamos ali no mesmo barco, procurando soluções para nossos problemas. Naquela sala, aguardando nossos psiquiatras.  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Algo sobre depressão - 1

Eu cheguei a pensar em escrever um diário da depressão. Mas, sei lá, talvez a impressão tosca que isso poderia passar é a de que eu fico chorando 24 horas por dia, ou então desejando morrer 24 horas por dia. Algo assim. Algo bem tosco. Não que não existam pessoas assim. Mas é uma imagem um tanto estereotipada, acho eu.
A verdade é que, depois de muito tempo, uma psicóloga me disse que talvez, quem sabe, eu poderia estar com depressão. Sim, depois de ter passado a minha adolescência inteira e parte da minha juventude me odiando, alguém me disse que isso poderia ser depressão.
E, depois dos 30, lá estava eu em uma noite de setembro, deitada no sofá, chorando por ter de tomar antidepressivos, morrendo de medo de ficar mais maluca do que eu já me achava. Ainda bem que tenho minha mãe pra me ajudar.
No dia seguinte tomei o primeiro comprimido. Pequeno, branquinho. Que me deixou perturbada. Fiquei enjoada, ansiosa, com medo. Passei o dia meio assim. Mas no dia seguinte tive de me concentrar no trabalho e acabei não ligando muito pro efeito do remédio.
O s dias foram passando assim. O ruim é que fui sentindo uma sonolência cada vez mais intensa. Cheguei a falar disso com a psicóloga. Ela disse que isso poderia ser tipo uma fuga minha pra não ter de enfrentar alguns problemas do meu dia a dia. No entanto, ela disse que sim, que isso poderia ser efeito do remédio.
Fora isso, eu me sentia meio mal com essa história de ter depressão. Por um lado, me senti aliviada. Alguém (a psicóloga) conseguia entender mais ou menos como eu me sentia. E saber disso é um puta alívio, me sinto menos sozinha. Por outro, me sentia meio mal de os outros saberem que eu estava deprimida. A única pessoa pra quem contei que iria tomar antidepressivos não tocava no assunto. A impressão que me ficou era a de que eu a estava incomodando com esse papo de depressão. Fiquei bastante frustrada com essa atitude, pois achei que essa pessoa era mais aberta.
Antes de ser diagnosticada, eu já conhecia pessoas que tinham depressão e que estavam tomando remédio. Confesso que eu ficava curiosa. Queria saber como ela se sentia tomando os antidepressivos, e como era a vida sem o remédio. Mas nunca perguntei nada. Conheci pessoas que diziam que já tinham tomado antidepressivos como se isso fosse motivo de orgulho. “Cara, sou muito foda, eu já tomei antidepressivo”. Já escutei gente dizendo “meu, eu tinha esquizofrenia. Era foda. Eu escutava vozes”. Ah, é... e se curou do dia pra noite. Sei.
O que quero dizer é que, até onde sei, a depressão fica ali à espreita, esperando você dar a chance de ela eclodir em uma crise. Não é uma coisa do tipo: “ah, terminei meu namoro ontem, estou deprimida, vou tomar uns remedinhos hoje e tudo vai ficar bem”.
Fazendo tratamento com psicóloga e psiquiatra, hoje, entendo uma porrada de coisas que aconteceram no meu passado. Umas crises ferradas que eu tinha, nas quais não havia ninguém que me dissesse o que estava acontecendo, porque eu preferia me isolar a ter de deixar alguém desconfortável com essas "histórias chatas". Era horrível. Eu me sentia a pessoa mais sozinha do planeta Terra. E, claro, eu tinha lá os meus pensamentos suicidas. Eram horríveis. E eu acordava de manhã com muita raiva de mim mesma por sentir o que sentia. Ou seja, era uma bosta.
Hoje estou no segundo antidepressivo. O primeiro me dava muito sono, e já estava começando a me atrapalhar no trabalho. Então tive de trocar de remédio. Estou há quase duas semanas com ele. Segundo a bula, o efeito do medicamento começa a ser sentido depois de duas semanas de tratamento. E este segundo é bem mais caro que o primeiro. “Ah, esse não vai te dar tanto sono, você não vai engordar nem perder a libido”, mas por ele tive de pagar o dobro do primeiro remédio que dava sono pra caralho, me fez engordar 4 kg e perder parcialmente a libido.


(continua...)