sábado, 31 de maio de 2014

exercício 1

A porta estava aberta pela metade. Entrei no apartamento. O lugar parecia maior por estar quase vazio. Da janela grande entrava a luz da manhã. No chão, uns jornais velhos e alguns parafusos jogados. Não queria sujar meu tênis novo, fui andando com cuidado. Via respingo de tinta amarela no chão. O apartamento cheira a reforma, a tinta látex, a pó, que vontade de espirrar.
- Porra, cê tá aí! Que susto! - ele gritou, me assustando. Segurava um rolo de pintar parede. Escorria tinta amarela pelo cabo. O pingo amarelo ia na direção da mão dele.
- Foi mal... - conferi se não havia tinta amarela no meu tênis.
- E aí? O que achou?
- Sua mão vai ficar amarela.
- Ah, não esquenta... Gostou? - ele abriu os braços pra se referir ao apartamento. Estava animado. Tinta amarela respingou no chão.
- Legal. - As teias de aranha no canto entre o teto a parede estremeceram. Um avião passava.
- Vem cá. Chega mais. - o cabelo tinha caspas amarelas. Ou seria sucrilhos?
- É... não quero sujar meu tênis... É novo. Foi mal. - queria protegê-los com as mãos. Enfiar em sacos plásticos. Que droga!
- Ah, que frescura! Vamos estrear! - ele vinha com o rolo na minha direção e ria.
-Não! Nem fodendo!  - corri pra cozinha.
O apartamento não era grande nem pequeno. Um elefante solitário e depressivo poderia viver ali. Um jaula com um certo conforto e charme. Ficava no centro, perto do metrô. O pai do Roberto viveu ali por um bom tempo, acho que por uns dez anos, antes de morrer. Anos de bebedeira. Anos de mentiras. Sempre estava tudo bem. O Roberto me contava.
- Roberto, que isso? Pizza? - abria uma caixa de papelão manchada de óleo. O cheiro era de catupiry frio.
- Café da manhã. Quer? É de ontem.
Peguei um pedaço e dei uma mordida. O catupiry descia gelado pela garganta. Estranho estar lá. Tudo agora parecia estar bem, agora que o pai do Roberto tinha morrido. O ar parecia mais leve. A mãe dele me parecia mais jovem. Preocupações envelhecem. O Roberto andava contente, animado. Ainda mais com o apartamento. Fazia planos, queria viajar. Não sei se de alguma forma estava eu estava incluída nisso. Sei lá se eu queria estar. No fundo, acho que não. Tinha que estudar, terminar a faculdade e não engravidar. Deus me livre de ter um filho com o Roberto.
- Bonito tênis. - ele esfregava as mãos debaixo da torneira, tentando tirar a crosta de tinta amarela das mãos. - você sabe que eu sempre tive tara por tênis... Um fetiche, sabe...
- Ah, falou...
- É sério! Já viu uns filmes pornôs dos anos 80? Umas minas transando de tênis na academia... - eu realmente não quero ter um filho com o Roberto. - Bateu mó tesão agora...
- Tó, come uma pizza que o tesão passa... - passo a caixa da pizza pra ele. - Gostei da cor. Amarelo é alegre.
Ele senta em cima da mesa que está cheia de latas de tinta. Come dois pedaços de pizza como se estivesse dois dias sem comer. Elas acabam em dois segundos. Olha para as paredes lotadas de azulejos brancos encardidos. Alguns respingo de gosma de cor de vômito estão grudados na parede perto de onde ficava a geladeira. Apesar de tudo, acho que o pai do Roberto até deveria ser uma boa pessoa. Só o vi uma vez. Quando nos encontramos por acaso na feira de discos perto dali. Ele comprou o "Le it be" dos Beatles. Eu nem conhecia esse disco na época. Ele começou a cantarolar "Across the universe" sorrindo, olhando a contracapa do álbum. Roberto revirou os olhos, estava de mau humor. "Nothing's gonna change my world".







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