sábado, 13 de novembro de 2010

Cinza sabático

Sábado começou nublado. Nuvens escuras para todos os lados. E uma vontade de sair de casa. Uma vontade de não estar aqui e de, o que não é muito raro, conhecer ninguém. Mas ao mesmo tempo estar bem com todo mundo. Ah. É difícil. E se pensa... fazer o que se faz sempre. Fugir, desviar daquela verdadezinha que está aqui na nossa frente. Que a levem as nuvens. O vento. Levem essa coisa incômoda que é a verdade. Fugir e fingir. Estar no mesmo lugar sempre e fingir não saber o porquê. É, o sábado nasceu cinza. Meu sorriso suporta o cinza docemente.
Sábado está terminando ainda cinza, virando preto, virando escuridão encardida. Mas leve. Com seus sonhos. Com a verdade. E não, não é um problema. Está ali. Está aceita. No meu braço talvez. Pulsando nas horas. Companhia agradável. Levarei-o para a cama e para os demais. Andemos juntos no cinza da verdade do sábado sorridente. Estarei sabática.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Entarder

A chuva desperta os mortos,
pensamentos fantasmas surgem
Passam vultos corredios
Nada que já não tenha visto

A casa anda vazia ao entardecer
Longe um sussurro a me escurecer
Estatelada e muda
Estatelada e muda
Muda
Muda
Muda

Enrolem-se em seus versos
Da rouca melodia
Não levem meus absurdos
Adulterada e fria
Fria
Fria
Fria

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Leve-nos

Queria ter a força do absurdo para correr atrás de você e chamar seu nome e dizer coisas inomináveis que há muito estão loucamente revoltas dentro de mim. E que, me desculpe, eu realmente não sei o que são... sonhos, desejos, medos, insanidades, não sei. Por um segundo queria sentir que você me compreende. E que no fundo todos nós tivéssemos razão e nada mais sobraria a não ser a certeza. Ah... a certeza... Doce alegria. Me imagino menina distraída a brincar com meu amigo. Veja isso! Veja aquilo! "Nossa! Você viu?" "Vi!" Embale nossos sonhos humildes e mortais. Nessa hora, nesse segundo. Por favor. Sob o mesmo céu. Noite negra estrelada das galaxias longíquas. Eu ordeno, num sussurro de esperança: Venha para mim. venha para mim... venha para mim... Leve minha mensagem pela janela, pelo bairro, pelo sonho.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Vem o sol

Assim vem o sol
Consumir a escuridão
Consumir a imensidão da noite
As horas nas asas dos pássaros
Carregam os sonhos dos adormecidos
E a culpa dos insones
Levam ao horizonte sem fim

sábado, 28 de agosto de 2010

Querer, dizer, achar

Querem me dizer algo
Que devo acreditar
Que tudo isso é engraçado
Mas eu não acho nenhuma graça

Querem me dizer algo
Que devo acreditar
Que devo querer ser desejável
E de tal modo me comportar

Querem me dizer algo
Que deveria desejar
Ser algo sempre maior
Do que os passos que posso dar

Mas na verdade quero dizer
Que eu acredito
Mais em mim e na minha vida
Não no que os outros que acham que eu devo achar

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Acordo

A cada passo uma batida mais forte
Parece que o universo se afunda em si mesmo
Num soluço incontrolável
Respirar fundo, eu vou conseguir
E as mãos suam e não adianta secá-las nas pernas
Estou sentada a poucos metros de distância

Não adianta fingir que não se importa
Fingir toda essa indiferença só pioram as coisas
Mas o que se faz para se segurar em si mesma
E não sair correndo em busca de socorro
Talvez um calmante, um tranquilizante

A poucos metros de distância
Sem querer tento ouvir a sua voz
Distingui-la de várias outras é tão difícil
E por isso canto qualquer coisa em cima dos segundos
Porque eu não posso pensar que você está aqui perto
Prestes a aparecer na minha frente
Olho pro chão, olho pra parede
Olho através de você, sua cabeça, seu rosto
Me evitando, me detestando, e retribuo

O desgostar dessa situação é o mesmo
Compartilham-se os desconfortos
Os gestos desenhados confessam
O medo de se reconhecer no outro é muito grande
Cuidado com as palavras, cuidado com os olhares
E o silêncio é um mostro que quer engolir nossas cabeças
Por isso é preciso que tudo seja muito rápido
Que façamos apenas o básico, por conveniência
Porque eu quis mantê-la com parte de nossas vidas
Num desastre que se repete por semanas

Mesmo à noite, quando deito minha cabeça sobre o travesseiro
Tento sonhar com as várias possibilidades
Todas ali, num piscar de olhos, tudo poderia ser diferente
O desgostar poderia deixar de ser o nosso acordo
Quebrariam-se as regras, respiraríamos aliviados
E poderíamos, enfim, seguir as nossas vidas
Em busca de nossas satisfações pessoais imperfeitas e tranquilas

domingo, 25 de julho de 2010

#!

Às vezes acho que isso não faz diferença
Ou não deveria fazer, pra mim não faz
Não há vantagens nem desvantagens
Faça o quiser mas não tente me convencer
Se essa é sua verdade vá em frente
E aguente as consequências
Mas não tente me convencer
Entenda: o que é bom pra você
Na maioria das vezes não é bom pra mim

domingo, 18 de julho de 2010

Tropeçando em câmera lenta se vai

Queria dizer que estou partindo
Queria deixar as saudades e todas as histórias correrem
Suavemente, no verde metálico das cercas velhas da estrada
Queria me mover bem rápido, mas se vai em direção a nada
Eu me conecto ao nada vazio branco do nada do eterno minuto-nada
Ao longe, eu me esforço, me esforço tentando enxergar láááááá
Nem sei se há vultos, nem nuvens nem fumaças ou ideias
Pequenas gotas de sonhos caindo geladas na pele
Vagarosamente rastejante, num piloto automático voltando pra casa
E digo "oi" por hábito e por hábito fechar a porta atrás de mim
Queria dizer que eu sinto muito pelas coisas serem assim
Mas a verdade é que... a verdade é que se vai

A verdade é que se acorda no meio da noite com medo do futuro
A verdade é que é preciso escovar os dentes
A verdade é eu gosto de pão com manteiga e café
A verdade é que eu sinto culpa
A verdade é que me importo de não estar vivendo do jeito que dizem que eu deveria viver
A verdade é que eu quero que todo mundo se exploda
A verdade é que eu só queria ser feliz e que todo mundo também fosse feliz
Mas a verdade é que as coisas são do jeito que são até que se mude de ideia

Move-se então, move-se então, à frente vão, despercebidos respiram
Um passo e então começa outro nos olhos sonolentos não sei mais
As pedras lançadas pelas crianças na beira da estrada
Fazem o ônibus tropicar preguiçosamente de um lado para o outro em sua viagem morna
Balançando a cabeça enquanto penso que talvez eu quisesse sentir saudades
Talvez eu quisesse

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Um dia diferentinho

Porque hoje estava chovendinho
não sei o que aconteceu
Só sei que a luz estava piscandinho
mas nada funcionava
nada

24 de maio de 1923 não é 24 de maio de 1982

Eu vi 24 de maio de 1923. Não me lembro em que página. Vi, apenas, no meio de outras palavras e letras pintadas de preto flutuando numa nuvem retangularmente branca. 24 de maio é meu aniversário, mas em 1923? Onde estaria eu? No céu azul de maio, em uma pedra num parque observando por acaso um casal passar, na renda do vestido dela? Em 24 de maio minha mãe me deu à luz. E onde estaria ela nos outros 24 de maio? E desde de 1982 esse dia pertence a mim, como uma relíquia. Com suas dores, alegrias e perdões. 24 de maio de 1982 não é 24 de maio de 1923. Vinte e três, um número anterior a vinte e quatro. de maio. maio. céu azul de maio. azul no três de vinte e três. sem nuvens. num parque dois. e o casal a passar na pedra da renda da minha mãe que me deu à luz. e em 1923. na beirada do meu 24.

sábado, 3 de abril de 2010

Perseguição

Não sei quem ou o que me fez isso
Se foi a presença ou a falta de um pai
Ou se foi o medo
Se foi a inveja
Se foi a vontade de viver que me sufoca
De perseguir um inimigo oculto
De querer matá-lo violentamente
Com a esperança de que seja eterno
Para matá-lo várias vezes de formas diferentes
Não, e não é questão de maldade
As coisas são o que são
Vamos parar de fingir que não está acontecendo nada
Só quero estar livre para correr
Me dê a vontade de querer

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Paixão

Oi. Oi ainda estou aqui. Você tentou me esquecer mas não adiantou nada... você sabe... A esperança é a última que morre...
E achou que deveria me largar no fundo de um armário, num caixinha talvez. Com todo carinho você me deixou alicom suas cartas antigas, coleções de ingressos de shows, fotos, cadernos e mais cadernos cheios de escritos, uma palheta na carteira, um violão encostado num canto do quarto, dois rádios velhos, Lps, Cds, K7s e Mp3... Ahã... como você poderia me esquecer,não é mesmo? Vamos lá, Iara, não negue que você simplesmente me ama e não pode viver sem mim! hehehe Vai, tente se refugiar nos livros, mas não se esqueça que foi ali que nos conhecemos. Bem, ali... na cena da festa... A Márcia fez questão de me apresentar a você. E desde então estamos juntos... Por mais que tente fugir você está me perseguindo... Ora, ora, o que posso dizer, sou irresistível! ahahaha E você (admita!) vai morrer em mim!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Disfarce

Na sala de espera. Entre uma letra e outra de um livro. Tento me distrair com seus significados. Procuro outros para disfarçar meu nervosismo. Minha ansiedade e minha sede de você-real. Aqui, a poucos metros, escuto sua voz despreocupada. "A vida mesmo é engraçada e você é apenas um papelzinho jogado na calçada de casa". E eu chupo uma bala para disfarçar a dose de você que venho tomando durante alguns dias. Meu hálito não reflete em nada o você-real. É preciso aspirar com mais atenção. E quanto mais estou com você mas longe ficamos. Não há como ser real. O ideal só existe aqui pra disfarçar uma solidãozinha que quero descartar. Ainda bem que existem outros dias, outros dias são melhores. Melhores são os tempos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Aquele que morrer primeiro

Se você ainda estivesse aqui
Eu não seria mais eu
Seria uma pessoa que foi enterrada viva
Você dançaria com um cadáver
E exigiria amor aos vermes que comem meus órgãos

Se você ainda estivesse aqui
Me encontraria num dia sem sombra
Um saco onde embalaram a carne do açougue
Cozida em fogo brando e a vida se esvaindo
Lambendo os dedos com o resto de sangue podre

Que bom que você não está aqui
Assim posso te queimar em uma fogueira
E assim te chamar de falecido
E assim chorar às vezes por alguém como se fosse querido
Nas minhas fantasias de saudades te mato no final
E deito minha cabeça encardida num travesseiro tranquilo

Movendo-se no cinza

Não insulte o branco dos olhos ásperos
Suspenda a respiração e ouça as batidas
Parece que vem de fora, ouça
Marteladas no fundo do mar

Tente escalar e ver o que há
Mas por trás da textura lisa
O concreto desintegra memórias
Elas caem, essenciais, quebrando-se

Estourando um pensamento dentro da sua cabeça
Os vultos surgem em névoas acizentadas
Sorrisos familiares dos que não se viveram
Tente se concentrar, tente se concentrar
Os pensamentos turvam outros pensamentos

Andando, correndo, passos carregam o meu peso pelas ruas
As articulações se sobrecarregam preocupadas
Dentro das botas tentam se sentir seguras
Depressa, pense rápido, onde eles podem estar?
A angústia dançando sob meu corpo
Tenta-se entender o que está prestes a acontecer
Porém as placas se impõem gigantescamente vazias

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Medo

Eu tenho medo. Medo de que não dê tempo. Uma agonia... Um medo de morrer sem ter me levado por um instante a sério. Medo do tempo que passa. Do tempo que um dia vai acabar.
Medo de que não dê tempo de ler Marx, de não saber nheca de História da Arte, de nunca compreender a arte moderna, de não poder ajudar ninguém... Meu(s) deus(es)!!! De entender por que as coisas são como são! Medo de perder o meu fiozinho de esperança...
Afinal pra que merda serve a arte? E o que é a arte? E por que o mercado faz o que faz com a arte? E por que o Brasil não investe nisso? Por que arte não põem pão na mesa de ninguém? E por que é necessário se expressar, se comunicar? Por que a arte existe? E quem disse que está tão distante de nós? Por que colocar as coisas num pedestal? E o tempo passa... o tempo passa...

Deus(es) aonde vai dar tudo isso???

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

...

Estou cansada de escrever sobre mim, de derramar aqui as mesmas questõezinhas que rondam minha cabeça. Ah, pra quê? Ver aqui na tela as mesmas interrogações que não param de se agitar na minha mente. Estou com dor de cabeça. Estou gripada. Primeiro dia do ano. A merda do vizinho liga seu repertório de piores músicas do mundo no último volume. Claro, o bairro inteiro tem que escutar! Sim, vou falar dele. Me esqueçam! Vou falar o quanto tenho vontade de explodir o som do carro dele. O quanto desejo que roubem o carro dele! Desejo sim. Uahahahaha Mas... não posso... De verdade, não posso. Minha religião (??) não permite. Aquilo que desejo aos outros volta pra mim três vezes. Uma coisa imbecil? Talvez, mas trata-se de um guia pra mim. Fazer o quê? Preciso de um se não me perco nesse vendaval de maluquices. E aí, até as coisas voltarem a fazer um certo sentido dá um puta trabalhão. Beijos.