quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Algo sobre depressão - 1

Eu cheguei a pensar em escrever um diário da depressão. Mas, sei lá, talvez a impressão tosca que isso poderia passar é a de que eu fico chorando 24 horas por dia, ou então desejando morrer 24 horas por dia. Algo assim. Algo bem tosco. Não que não existam pessoas assim. Mas é uma imagem um tanto estereotipada, acho eu.
A verdade é que, depois de muito tempo, uma psicóloga me disse que talvez, quem sabe, eu poderia estar com depressão. Sim, depois de ter passado a minha adolescência inteira e parte da minha juventude me odiando, alguém me disse que isso poderia ser depressão.
E, depois dos 30, lá estava eu em uma noite de setembro, deitada no sofá, chorando por ter de tomar antidepressivos, morrendo de medo de ficar mais maluca do que eu já me achava. Ainda bem que tenho minha mãe pra me ajudar.
No dia seguinte tomei o primeiro comprimido. Pequeno, branquinho. Que me deixou perturbada. Fiquei enjoada, ansiosa, com medo. Passei o dia meio assim. Mas no dia seguinte tive de me concentrar no trabalho e acabei não ligando muito pro efeito do remédio.
O s dias foram passando assim. O ruim é que fui sentindo uma sonolência cada vez mais intensa. Cheguei a falar disso com a psicóloga. Ela disse que isso poderia ser tipo uma fuga minha pra não ter de enfrentar alguns problemas do meu dia a dia. No entanto, ela disse que sim, que isso poderia ser efeito do remédio.
Fora isso, eu me sentia meio mal com essa história de ter depressão. Por um lado, me senti aliviada. Alguém (a psicóloga) conseguia entender mais ou menos como eu me sentia. E saber disso é um puta alívio, me sinto menos sozinha. Por outro, me sentia meio mal de os outros saberem que eu estava deprimida. A única pessoa pra quem contei que iria tomar antidepressivos não tocava no assunto. A impressão que me ficou era a de que eu a estava incomodando com esse papo de depressão. Fiquei bastante frustrada com essa atitude, pois achei que essa pessoa era mais aberta.
Antes de ser diagnosticada, eu já conhecia pessoas que tinham depressão e que estavam tomando remédio. Confesso que eu ficava curiosa. Queria saber como ela se sentia tomando os antidepressivos, e como era a vida sem o remédio. Mas nunca perguntei nada. Conheci pessoas que diziam que já tinham tomado antidepressivos como se isso fosse motivo de orgulho. “Cara, sou muito foda, eu já tomei antidepressivo”. Já escutei gente dizendo “meu, eu tinha esquizofrenia. Era foda. Eu escutava vozes”. Ah, é... e se curou do dia pra noite. Sei.
O que quero dizer é que, até onde sei, a depressão fica ali à espreita, esperando você dar a chance de ela eclodir em uma crise. Não é uma coisa do tipo: “ah, terminei meu namoro ontem, estou deprimida, vou tomar uns remedinhos hoje e tudo vai ficar bem”.
Fazendo tratamento com psicóloga e psiquiatra, hoje, entendo uma porrada de coisas que aconteceram no meu passado. Umas crises ferradas que eu tinha, nas quais não havia ninguém que me dissesse o que estava acontecendo, porque eu preferia me isolar a ter de deixar alguém desconfortável com essas "histórias chatas". Era horrível. Eu me sentia a pessoa mais sozinha do planeta Terra. E, claro, eu tinha lá os meus pensamentos suicidas. Eram horríveis. E eu acordava de manhã com muita raiva de mim mesma por sentir o que sentia. Ou seja, era uma bosta.
Hoje estou no segundo antidepressivo. O primeiro me dava muito sono, e já estava começando a me atrapalhar no trabalho. Então tive de trocar de remédio. Estou há quase duas semanas com ele. Segundo a bula, o efeito do medicamento começa a ser sentido depois de duas semanas de tratamento. E este segundo é bem mais caro que o primeiro. “Ah, esse não vai te dar tanto sono, você não vai engordar nem perder a libido”, mas por ele tive de pagar o dobro do primeiro remédio que dava sono pra caralho, me fez engordar 4 kg e perder parcialmente a libido.


(continua...)

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