Eu cheguei a pensar em escrever um diário da depressão. Mas,
sei lá, talvez a impressão tosca que isso poderia passar é a de que eu fico
chorando 24 horas por dia, ou então desejando morrer 24 horas por dia. Algo assim. Algo
bem tosco. Não que não existam pessoas assim. Mas é uma imagem um tanto estereotipada,
acho eu.
A verdade é que, depois de muito tempo, uma psicóloga me
disse que talvez, quem sabe, eu poderia estar com depressão. Sim, depois de ter
passado a minha adolescência inteira e parte da minha juventude me odiando,
alguém me disse que isso poderia ser depressão.
E, depois dos 30, lá estava eu em uma noite de setembro,
deitada no sofá, chorando por ter de tomar antidepressivos, morrendo de medo de
ficar mais maluca do que eu já me achava. Ainda bem que tenho minha mãe pra me
ajudar.
No dia seguinte tomei o primeiro comprimido. Pequeno,
branquinho. Que me deixou perturbada. Fiquei enjoada, ansiosa, com medo.
Passei o dia meio assim. Mas no dia seguinte tive de me concentrar no trabalho
e acabei não ligando muito pro efeito do remédio.
O s dias foram passando assim. O ruim é que fui sentindo uma
sonolência cada vez mais intensa. Cheguei a falar disso com a psicóloga. Ela
disse que isso poderia ser tipo uma fuga minha pra não ter de enfrentar alguns
problemas do meu dia a dia. No entanto, ela disse que sim, que isso poderia ser
efeito do remédio.
Fora isso, eu me sentia meio mal com essa história de ter
depressão. Por um lado, me senti aliviada. Alguém (a psicóloga) conseguia entender
mais ou menos como eu me sentia. E saber disso é um puta alívio, me sinto menos
sozinha. Por outro, me sentia meio mal de os outros saberem que eu estava
deprimida. A única pessoa pra quem contei que iria tomar antidepressivos não
tocava no assunto. A impressão que me ficou era a de que eu a estava
incomodando com esse papo de depressão. Fiquei bastante frustrada com essa
atitude, pois achei que essa pessoa era mais aberta.
Antes de ser diagnosticada, eu já conhecia pessoas que
tinham depressão e que estavam tomando remédio. Confesso que eu ficava curiosa.
Queria saber como ela se sentia tomando os antidepressivos, e como era a
vida sem o remédio. Mas nunca perguntei nada. Conheci pessoas que diziam que já
tinham tomado antidepressivos como se isso fosse motivo de orgulho. “Cara, sou
muito foda, eu já tomei antidepressivo”. Já escutei gente dizendo “meu, eu
tinha esquizofrenia. Era foda. Eu escutava vozes”. Ah, é... e se curou do dia
pra noite. Sei.
O que quero dizer é que, até onde sei, a depressão fica ali à
espreita, esperando você dar a chance de ela eclodir em uma crise. Não é uma
coisa do tipo: “ah, terminei meu namoro ontem, estou deprimida, vou tomar uns
remedinhos hoje e tudo vai ficar bem”.
Fazendo tratamento com psicóloga e psiquiatra, hoje, entendo
uma porrada de coisas que aconteceram no meu passado. Umas crises ferradas que
eu tinha, nas quais não havia ninguém que me dissesse o que estava acontecendo,
porque eu preferia me isolar a ter de deixar alguém desconfortável com essas "histórias chatas". Era horrível. Eu me sentia a pessoa mais sozinha do planeta Terra. E,
claro, eu tinha lá os meus pensamentos suicidas. Eram horríveis. E eu acordava
de manhã com muita raiva de mim mesma por sentir o que sentia. Ou seja, era uma
bosta.
Hoje estou no segundo antidepressivo. O primeiro me dava
muito sono, e já estava começando a me atrapalhar no trabalho. Então tive de
trocar de remédio. Estou há quase duas semanas com ele. Segundo a bula, o efeito
do medicamento começa a ser sentido depois de duas semanas de tratamento. E
este segundo é bem mais caro que o primeiro. “Ah, esse não vai te dar tanto
sono, você não vai engordar nem perder a libido”, mas por ele tive de pagar o
dobro do primeiro remédio que dava sono pra caralho, me fez engordar 4 kg e
perder parcialmente a libido.
(continua...)
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