terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Na sala de espera

Hoje cheguei uns 10 minutos adiantada para a consulta com a psiquiatra. Tive que passar um tanto de tempo na sala de espera. Dá tempo de beber um copo d’água calmamente, procurar alguma revista interessante para folhear que não seja a Veja ou Caras (ou alguma genérica que de tão sem importância não me lembro o nome).

Nisso, existem as pessoas. Os outros pacientes. Os outros maluquinhos que estão no mesmo barco que você.

Antes de eu entrar no edifício do consultório, antes de dobrar a esquina que dá na ruela do edifício do consultório, ultrapasso com passos firmes um moleque que anda na minha frente de um modo molenga. Mas não um molenga qualquer, imagine um robô molenga querendo andar rápido. Assim era o moleque. Aparentemente descendente de japoneses. Ele carregava uma dessas bolsas a tira colo cheio de botons coloridinhos. O que mais me chamou a atenção foi o fato de os botons estarem dispostos um ao lado do outro, em duas fileiras retas. Ah, e também reparei que ele andava com a mão direita esticada. Os dedos não estavam tão retos quanto o braço, mas pareciam tensos. Me fez lembrar de um primo meu.
Ultrapassando o moleque, aperto o passo porque acho que tenho chances de chegar atrasada. Diante do portão branco do edifício, que na verdade é uma casa, aperto o botão do interfone. Depois de um tempo esperando, ouço o clique do portão. Ao fechá-lo atrás de mim, vejo o moleque acenando para que eu deixe o portão aberto. É, ele é um os pacientes. Tão maluco quanto eu. E, ao vê-lo de frente, vejo que não é tão moleque assim. Deve ter uns vinte e tantos anos. Sei lá.
Ao entrar na recepção/sala de espera o lado esquerdo há um homem grandalhão segurando uma sacola de pano, com ar angustiado. Ele balança o corpo levemente pra frente e pra trás. Eu sinto angústia ao vê-lo, porque parece que ele está sofrendo.
Do lado direito um senhor de boina está sentado ao lado de uma mulher um pouco mais jovem, provavelmente sua filha. Ela mostra a ele fotos do seu celular e comenta alto “essa aqui foi a pizza que a gente comeu no sábado”.
Me dirijo à recepcionista. “Tenho consulta com a Dra. A.”. Entrego a carteirinha do convênio médico e vou até o bebedouro pra beber o copo d’água. Faz um calor desgraçado. O moleque que não é moleque é cumprimentado pela recepcionista. Talvez ele deva bater ponto lá toda semana. Ele senta na ponta o sofá, perto do bebedouro, pega o celular, e aperta os botões, ou finge que aperta e que está vendo algo interessante, cantarolando a música que toca no rádio da recepção/sala de espera. Cantarola desafinado. “Básico”, penso.
Volto ao balcão da recepcionista porque tenho de assinar um formulário para o meu convênio médico. Depois sento na outra ponta do sofá onde está o moleque que não é moleque. A minha frente continuam pai e filha vendo as fotos do celular enquanto caço uma revista interessante pra folhear. “Ah, você tira fotos para não esquecer, né”, diz o senhor para filha. “Não, mas olha que bonita essa estrada. Olha essa árvore!”. Acho uma revista Exame, a qual, depois de folhear, concluí que não é melhor que uma Veja.
O cara grandalhão parece cada vez mais inquieto. Murmura algumas coisas. Boceja um “nossa, que sono!” com uma voz grave. E agarra sua sacola de pano precisa. Uma mulher com a cara fechada chega, diz algo à recepcionista. Depois de olhar o grandalhão por um tempo senta ao meu lado e fica tensamente imóvel. Logo em seguida chega outra mulher que também é recebida pela recepcionista com simpatia. “De cabelos longos?! Quando você veio aqui tava curtinho. Ah, foi por causa do casamento, né.” Essa mulher senta do lado do grandalhão e começa a mexer no celular.
Enquanto finjo folhear uma revista de decoração de casas, fico pensando no que será que o grandalhão tem. Será que ele pode surtar do nada e bater na mulher que tá do lado dele? Será que toma uns medicamentos pesados? Será que ele sofre muito? Tenho dó. E de repente reparo que o moleque que não é moleque também balança levemente o tronco pra frente e pra trás, cantarolando outra música, mexendo no celular. “Esse deve ser hiperativo. E deve ter dificuldade em se relacionar com as pessoas”, penso. A que está do meu lado continua imóvel, não reparo se ela pisca ou se respira. Na verdade, eu não me viro diretamente pra ela. Tento observá-la com o canto do olho. Talvez ela tenha depressão. A do lado do grandalhão também. O senhor e sua filha? Não faço ideia. Mas todos ali estão com algum problema mental. Já imaginou isso? Estar numa sala onde a maioria das pessoas é “gente perturbada”?
Pois é, e eu sou uma dessas “perturbadas” (ouvi isso de um cara que tentava impressionar a moça que estava com ele na Livraria Cultura de Artes, quando folheavam um livro da Diane Arbus: “Essa daí, você sabe, né, era uma perturbada. Se matou.”). Bom, até que escrevendo isso me vejo com um certo privilégio de ser “perturbada” como a Diane Arbus. Oh, tenho algo em comum com essa fotógrafa excepcional!


E estamos ali no mesmo barco, procurando soluções para nossos problemas. Naquela sala, aguardando nossos psiquiatras.  

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