Eu sei que vou fazer uma merda. Simples assim. Eu sei que
vou me arrepender em algum momento. Talvez em poucos segundos adiante. Entre
uma piscada e outra. É. Eu vou me arrepender. Eu sei. E esse é o preço. É a
moeda. Meu desespero de ouro. É ele que muda o rumo das coisas, em um instante.
Que venha o vento leste. O vento oeste. Eu vos convoco! Este é o momento!
Faça-se a merda! Ploft!
Simples assim.
E então aquele grito dentro de mim emudece. Ele está
surpreso comigo mesma. Ele está surpreso com o mundo. Estamos, eu e meu grito
mudo, no topo da montanha-russa, admirando a paisagem. Vejam aquelas pessoas,
tão pequenininhas. Olha, meu professor de artes do ginásio! E aquela menina
ali, qual é mesmo o nome dela? Pequenininhas. As pessoas. Vivendo as suas
vidas. Correndo de um lado para o outro. Agarrando-se em seu desespero. É assim
que o meu desespero as enxerga. Eles se reconhecem. E eu digo que ele precisa
de óculos novos, porque ele está vendo tudo embaçado. Confunde algumas coisas,
coitado. “Não, não é bem assim”, digo, às vezes.
Simples, não é mesmo?
Mas já foi. Não tem como voltar. A merda tá aí.
Já soou o alarme. Não tem como parar. E um buraco vai se
abrindo aos meus pés. Uma boca fatal a me engolir como um chá amargo. E
lentamente vou caindo dentro dela, sem quase nenhuma resistência, e não sei
quando exatamente vou parar de me afundar nela. Caindo tento me acalmar: “Não
foi por mal!”.
Não, nunca é por mal.
E vou caindo, caindo, caindo... e se a dor vai se
intensificando, vou desejando perder os sentidos. Vou desejando esquecer meu
nome. Vou desejando tornar-me invisível e sumir. Me desintegrar. Virar sonho de
ácaro, ou pesadelo. E já nem sei direito o motivo de eu estar onde estou.
Apenas caindo.
Mas então chega uma hora que o vazio cansa. Que não aguento
mais acordar e ainda estar caindo. Cair torna-se entediante. Bom dia, vazio!
Boa tarde, nada! Boa noite, indiferença! A queda vai desacelerando. “Vejam só
que bosta de vida estou levando. E olha que nem temos tanto tempo assim, não é
mesmo?” E assim a saudade de sentir o gosto das coisas vem sussurrar nos meus
pensamentos. Sentir a dureza do concreto sob os pés. O calor do sol, o vento na
pele e o cheiro de terra molhada das chuvas de verão. Saudades até de sentir um
tapa na cara.
Eu senti um tapa na cara. Doeu. Doeu bastante.
Ainda dói quando eu me lembro. Mas eu aguento. É o preço. Ou
melhor, é o lado ruim de uma coisa boa, da qual não me arrependo. Mais uma
lembrancinha, um souvenir a ser levado comigo até eu morrer.
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