sábado, 19 de dezembro de 2009

Eu preciso sair

Eu preciso sair. Antes disso olho pela janela, preciso me certificar de que as nuvens cinzentas estão ali e ali permanecerão por um bom tempo, pelo menos tempo suficiente para poder andar por aquelas ruas sem começar a suar feito um imbecil. Sim, as nuvens estão ali, grandes pedaços de algodão encardido, sujo, usado. Fecho a cortina. Ponho meu casaco preto. Num dos bolso procuro o maço de cigarros e o isqueiro. Coloco um cigarro na boca, acendo, alívio. Devolvo o maço e o isqueiro ao bolso. Enfio uns trocados que estavam jogados na mesa no bolso direito da calça. Saio. Sinto o vento gelado bater no meu rosto, um arrepio na espinha, encolho meus ombros. Com a mão esquerda seguro o cigarro, a direita enfio no bolso do casaco quase sentindo o maço e o isqueiro. Dobro a esquina. Está bem frio hoje, meu nariz vai congelar. Tenho vontade de rir. Rio. Está frio pra caralho! Rio. Que merda! Rio. Uma senhora vem do outro lado da calçada, me olha meio assustada e depois olha pro chão. Olho pro chão. Rio. Não sinto direito o cigarro. A fumaça quase não vejo, venta muito. Ando depressa pra tentar esquentar o corpo. Sinto uma alegria não sei de onde. Por causa do mau tempo as ruas estão mais vazias. Melhor. Assim é que é bom. Não sei pra onde vou. Só queria andar. Mas sem propósito as coisas ficam meio sem graça. Não tenho amigos pra visitar. Só tenho uns trocados. Deveria ter trazido o mp3 pra ouvir alguma coisa boa. Aquela coletânea de post-punk. Não sei. Desgraça. Coloco minha mão no bolso da calça pra sentir as moedas. Mais cigarros? Não. Tô enjoando disso, a brincadeira tá ficando meio sem graça também. Ok, aceito uma cerveja. Isso. Uma cerveja. Volto pra casa e escuto algumas músicas. Tomo várias cervejas. Merda de amigos. Mas o frio está bom. Eu poderia morrer agora, feliz. Poderia ficar aqui congelando, mas tenho vontade de movimento, preciso acompanhar o vento. Onde será que ele vai dar? Andar, andar até cansar. Mas não quero suar como um imbecil. Pior é que realmente estou esquentando. Apago o cigarro na mureta de uma casa, seguro a bituca. Que merda, nessa cidade não tem lixo, por isso tá essa merda. Finalmente, um lixo. Jogo a bituca. Cheiro minha mão, me certifico que o cheiro de cigarro ficou nos dedos. Droga. Sorrio. Bom, o mercado tá logo ali. Cerveja. Acho que dá pra umas três long neck. Pessoas. Famílias, casais, velhos. Crianças. A menina dançando em frente a televisão de 32 polegadas. Dança Pink Floyd. Nem deve saber o que é isso. Engraçado. Sorrio. A menina me olha, sorrindo com os olhos, para de dançar e gruda na perna da mãe. Acho que é a mãe. Não importa. Só vejo pernas gordas envolvidas num pano rosa-shoking. Cerveja é pra lá. Mais pessoas, carrinhos. Pessoas lerdas. Vejo a parte de sorvetes. Droga, estou suando como um imbecil. Bolachas. Nossa, a fila tá grande. Droga. A loira. Piercing no umbigo. Parece um verme preso por um brilhante balançando na barriga dela. Um dia ele vai entrar na barriga dela pelo umbigo e vai comer que estiver lá dentro. Sorrio. Ela finge que não viu. Bunda. Gostosinha. Não tem peitos, mas até que serve. Cerveja. Ali. Ok. Minhas Heinikens e não se fala mais nisso. Mas tem uma aqui... Irlandesa. Deve ser forte. Diferente. Não, não. Vou levar as verdes. Dane-se. Não tenho muita grana. Acho que dá. Essas três tá bom. Vai dar pra dormir. Que deprimente. Foi o que ela disse uma vez. "Beber sozinho deve ser deprimente!" É? Dane-se. Vai beber com suas amiguinhas imbecis. Dane-se. Não tenho amigos. Suas amiguinhas até eram legais, a Ju, principalmente. Além de ter uns peitões era engraçada. Pena. Fila. Casal imbecilzinho na minha frente. Eu mereço? Não! Nhenhenhém pra cá, amorzinho pra lá. "Amor, deixa eu comer o seu cuzinho? Ah, não sei, será que é uma boa ideiazinha? Ai, pombinha, deixa, vai? Só um pouquinho, não vai doer. Ah, tá bom... Toc-toc. Quem é você?" Tiro uma espada do bolso corto a cabeça dela num só golpe e corto o outro ao meio. Sangue pra todo lado. Rio. Salgadinhos. Batatas fritas, Fandangos, brinquedinhos coloridos. Legal. O que é isso? Pego um negócio de plástico azul, uma das tampas é transparente, coisas coloridas balançam. Símbolo do Batman. Legal. Devolvo à caixa de papelão onde estava encaixada. Essas garrafas estão congelando minhas mãos. Se ao menos eu tivesse pêgo um cesta. Merda. E esses dois na minha frente não param. Ela me olha às vezes. O cara tenta deixar ela de lado pra ver se ela tá me olhando ou não. Ele viu que eu tava olhando pra ela. Café. Lá na estante. Café quente. Gosto forte. Ela é cheirosa. Uma gordinha gostosa. Logo serei atendido. Merda. Minha mão tá dura.
- Caixa cinco!
Vou em direção ao caixa. Olho duas vezes pra plaquinha pra me certificar de que realmente é o caixa 5. É. A mulher guarda apressada o resto das mercadorias de um casal de velhinhos lerdinhos. Coitados. Deixo as garrafas em cima do balção do caixa. A mulher fecha o caixa com ar de cansada. Deve ser uma dureza trabalhar aqui.
- Boa tarde, senhor. - ela esboça um sorriso cansado.
- Boa tarde. - sorrio buscando meus trocados no bolso da calça.
- Encontrou tudo o que desejava?
- Sim. - Me atrapalho com as moedas.
- 6,60.
Separo a grana e dou pra mulher.
Coloco as garrafas dentro de duas sacolas de plástico para não arrebentarem. Ela me entrega a nota.
- Obrigado. - enfio a nota no bolso de trás da calça. Pego as sacolas. Será que eu deveria pegar uma e já tomar? Minhas mãos ainda estão geladas. Saio do mercado. O vento continua aqui. Respiro o ar gelado. Minhas mãos estão congeladas. Frio do caralho! Ando. Um carro vem vindo no estacionamento. Passo na frente. Saio pra rua. Coloco a mão no bolso, sinto o maço e o isqueiro. Cigarro. Paro para atravessar a rua. Pego o maço. Tiro um cigarro, o coloco na boca, prendo com os lábios. Pego o isqueiro. Acendo. Alívio. Bom. Frio. Sorrio. Atravesso a rua. O menino que atravessa a rua do outro lado me olha. Deve me achar o máximo com esse casaco preto. Rio. Ele usa uma blusa de moletom do Iron Maiden. Quer ser meu amigo, bichinha? Vamos lá em casa te apresento umas bandas de verdade. Se você for legal te ofereço um cigarro. Pena. Ele deve ter amigos mais legais, que devem gostar de Iron Maidem também. Bom, pra ele. Melhor pra mim. Vou abrir uma cerveja. Não vou esperar, não. Foda-se. Pego uma da sacola. Caralho, que gelo! Abro uma. Jogo a tampa dentro do saco. Cara, meu cérebro congelou agora. Umas mulheres vem vindo. Babo pelo canto direito. A mais velhas me olha com reprovação. Limpo a baba com o punho da mão que segura a garrafa.
Vou bebendo, em pequenos goles. Ah, o gosto amargo. Os primeiros sempre são os melhores e o resto vira hábito até acabar. Chegar em casa. Pelo menos lá vai estar mais quente. Além do mais já estou de saco cheio. Padaria de merda. Olha os velhos barrigudos enchendo a cara, enquanto a mulher deve estar assistindo a novela fofocando com as vizinhas dizendo "Ele não presta!" e a outra concordando. Imbecis. Dobro a esquina. Ninguém na minha rua. Bom. A garrafa tá na metade. O que vou ouvir? Me vem a bateria do começo da "Anthrax". Boa. Gang of four. Boa.

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